terça-feira, 15 de junho de 2021

A decisão de Cascão [ Quadrinhos ]

 


A Turma da Mônica é a grande realização de Maurício de Sousa, gênio da nona arte que criou o belo universo do bairro do Limoeiro, as turmas da Mata e do Penadinho bem como o universo pré-histórico que adoro: Piteco e seus amigos primitivos, habitantes de Lem, e o pequeno tiranossauro filósofo Horácio. Além disso, não posso deixar de fora meu amado Chico Bento e os caipiras da Vila Abobrinha. Para quem não sabe, conquanto não produza mais quadrinhos de próprio punho, Maurício é excelente escritor e desenhista. Basta conferir sua produção autoral.

Até metade dos anos '90, todas as revistas do Maurício de Sousa Produções (MSP) eram boas ou ótimas. Não recordo de gibi ruim. Mas com o tempo isso mudou. Os estúdios abraçaram a pauta engessada do politicamente correto e tudo perdeu a graça. Assim, por exemplo, o povo da roça não pode mais caçar nem cortar lenha. Todos são amigos da "Mãe Natureza". Como se usar gás de cozinha e comprar em supermercado fosse ecológico! O mesmo vale para os índios Papa-Capim e Cafuné. Mônica não é mais tão agressiva, Magali evita exageros gastronômicos, Cebolinha trata a dentuça com bastante deferência e, além das pautas lacradoras, a arte está sofrível, com praticamente carimbos digitais em cada página. As capas que eram piadas (gags) tornaram-se meras referências às histórias principais. Afinal, pra quê pensar demais ao se produzir gibis?

Neste mundo insosso, Cascão agora até é limpo. Evita tomar banhos, mas às vezes retira a sujeira e alerta para os benefícios da assepsia. Isso porque as crianças poderiam deixar de tomar banho lendo gibis. É como porque deixaram de representar ratinhos com formas fofas: os guris poderiam sair por aí catando ratazanas e beijando-as no focinho, no mundo real. Quanta bobagem. Isso mais ainda se considerarmos que Um Amor de Ratinho é uma das histórias clássicas de Mônica, inclusive adaptada para o cinema numa animação fofinha e lançada em formato livro infantil.

Esses dias, reli a HQ Cascão n.° 47 (editora Abril), publicada em maio de 1984 e republicada em 2015 pela Coleção Histórica. A partir da capa já vemos como era fantástico o trabalho do MSP: o sujinho de penetra na Arca de Noé, para escapar das águas. E, no miolo, dentre tantas histórias bacanas, temos até espaço para divagações metafísicas, num experimento quadrinístico onde divagamos com uma gota de orvalho. A história "A Decisão" foi escrita por Maurício de Sousa e desenhada por Beto. Em quatro páginas com repetição de requadros, o artista optou por ilustrar um a um, sem recorrer a reprodução mecânica de copia-cola (paste-up). Cascão, ao ver a gotinha de orvalho na iminência de cair sobre sua cabeça, divaga como o acontecimento poderia mudar tudo. Ele se tornaria outra pessoa: "Tudo muito simples! É só ficar parado aqui e pronto! A minha vida vai mudar totalmente.", resume. E conclui: "Mas quem disse que eu quero mudança?". E a gotinha que poderia mudar tudo ficou lá, durante quatro requadros, aguardando evaporar e não sobrar mais nenhum traço do que ela poderia representar.

É isso. Em 1984, Cascão optou por ser ele mesmo. Mas bastou a pauta de engajamento lacrador chegar aos Estúdios e tudo se perdeu, sem mais explicações, de forma abrupta. E toda a mitologia construída por Maurício e sua equipe de profissionais competentes foi por água abaixo (sem trocadilho).

Li uma postagem de 2009 escrita por alguém que não é leitor contumaz dos títulos MSP e que teve em mãos, por acaso, um gibi da Turma da Mônica Jovem. Ali, ele mostra seu assombro pela castração da identidade dos personagens e elabora excelente reflexão sobre o paradoxo do politicamente imbecilizante: a pretexto de respeitar as diferenças, Maurício tolheu os aspectos mais intrínsecos de seus personagens, tornando-os todos iguais. E, assim, abandonou a grande lição da vida: nos aceitarmos como somos e sabermos lidar com nossas diferenças. Se tiverem interesse, confiram no A Marreta do Azarão.

Abraços assépticos e até a próxima.