sábado, 10 de outubro de 2020

O mal em Pinóquio

Depois que me comprou, o senhor me trouxe para este lugar para me matar, mas então, cedendo a um sentimento humanitário, preferiu amarrar-me a uma pedra no pescoço e me atirar ao fundo do mar.

Pinóquio, Capítulo XXXIV.

No divertido Esquerda Caviar, Rodrigo Constantino nos diz que o primeiro representante de peso dessa estirpe radical chic foi Jean-Jacques Rousseau. Como grande amante da humanidade e sem capacidade de amar sequer o próximo (aliás, nem os próprios filhos), teceu a ideia de contrato social que lhe deu o nobre título de pai do totalitarismo moderno. Dele é o pensamento - dissociado da realidade - "o homem nasce bom e a sociedade o corrompe", contrário à doutrina judaico-cristã do pecado original. Para os que desconhecem: católicos batizam crianças, por exemplo, porque estas nasceriam contaminadas pelo pecado primevo. Crianças podem ser más, capazes de atos atrozes, mas perdoadas por sua ingenuidade. Simples assim. Esse batismo, mais à frente, seria renovado no sacramento da crisma.

Acredito piamente que o homem nasce dominado por sua natureza selvagem (nada generosa). E apenas com bastante força de vontade e aprimoramento espiritual ele, talvez, consiga melhorar enquanto ser vivo consciente de sua existência. Esse é mote por trás do maravilhoso O Senhor das Moscas, do Nobel William Golding, o qual viveu e faleceu descrente no ser humano. Na trama, crianças cedem a ímpetos selvagens em pleno isolamento civilizatório, quando confrontadas com o estado natural. Ao depositarmos fé na capacidade humana de - por normas jurídicas, exercendo poder - mudar a sociedade, lhe damos a corda onde seremos pendurados. Como disse Olavo de Carvalho certa vez, "quando ouço alguém falar em mudar o mundo, me escondo logo sob a cama".

Pinóquio - A História de Um Boneco, obra escrita de Carlo Collodi essencial à literatura mundial, parte do mesmo pressuposto bíblico: os seres vivos não são naturalmente bons. E assim é Pinóquio: mal, vagabundo, preguiçoso, cruel e ardiloso. Um pequeno canalha-mor em madeira seca. Sua primeira conduta enquanto vivente é explorar o amor do pai por si e assassinar o Grilo Falante. Mas à frente, ludibria a Fada de Cabelos Turquesa e, novamente, explora o amor quase materno. Entre trancos e barrancos, após sofrer roubos, tentativas de assassinato, cárcere privado, escravidão e ser até mesmo transformado em jumento e jogado ao mar para ter o couro esfolado, reconhece precisar melhorar e, assim, em redenção, procura se redimir de todas suas falhas, tornando-se finalmente um menino de carne e osso como prêmio.

A citação escolhida por mim a esta postagem, acima, evidencia o mundo habitando pelo boneco sacana. Um garoto imoral numa existência igualmente corrompida. O mundo nunca foi bom lugar onde habitar, mas é o único que possuímos e vale a pena tentar viver em paz sobre ele, flutuando no vasto espaço.

Em postagem anterior, falei sobre a insanidade nos preços dessas obras esgotadas da finada Cosac Naify. Ali, também mencionei o apuro gráfico do volume. Quem quiser adquirir um livro caprichado e a preço justo, recomendo a edição da SESI-SP Editora, elaborada sobre acervo doado pela Cosac Naify, que respeitou a intenção original do autor.

Também deixo como sugestão o excelente quadrinho Pinóquio de Winshluss, recomendado por mim há alguns anos.

Abraços madeirísticos (!) e até a próxima.

Obras mencionadas nesta postagem.

12 comentários:

  1. Dos três livros citados, li apenas dois. O Pinóquio, infelizmente, só conheço a versão boazinha da Disney. Ele mata o Grilo Falante?
    Uma curiosidade : na postagem anterior, você falou sobre um "antigo blog" seu. O que houve com ele?

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    1. "li apenas dois"

      De três, dois. Leu bastante. E histórias infantis, mesmo clássicas, podem não agradar a muitos.

      Sim, ele executa o Grilo com um martelo arremessado à parede. Depois, o mesmo fica lhe aparecendo meio como "entidade".

      O blogue foi extinto. Esta é a segunda versão.

      Abraços!

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    2. "Conte-me a primeira"

      Não entendi. Mas se foi sobre a primeira versão do blogue? Era algo idêntico a este. Aliás, muita coisa aqui foi repostada da primeira.

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  2. Vivendo e aprendendo com os pinocchios da vida. Quando a gente é sincero e se expõe demais, as pessoas não gostam do que veem, chamando-nos de ardilosos e mandando que mudemos. No fim, os Pinocchios ainda recebem recompensa. É acredito que qualquer Pinocchio é bem mais interessante do que o veadinho entediante da Disney.

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  3. a lista de leitura só aumenta...
    lindas edições - deve dar gosto olhar pra estante. acho que a melhor parte são as lembranças que as lombadas e títulos evocam.
    SESI-SP Editora tem publicações visualmente impressionantes - deve ter alguma verba pública para poder imprimir tanto coisa legal
    lembrei da versão em quadrinhos que saiu pela globo, tinha uma postagem sua sobre esse gibi. era bom fazer uma remissão.

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    1. Olá, Scant.

      Sensorialmente, não há como o meio digital nos dar algo assim. Quantas vezes não nos perdemos olhando alguma lombada não apenas de livros, mas tb de DVDs e CD...?

      As verbas do SESI são, especialmente, as contribuições parafiscais, como bem sabemos. É muita grana. Esses serviços, essencialmente, funcionam como cabides de empregos e espaços para articulações políticas. Ao menos estão editando algo.

      Boa memória a sua. Nem sei se possuo mais aquela postagem. Mas pensei realmente em falar dela aqui. Aí resolvi deixar para uma próxima.

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    2. "Na madrugada de hoje li a melhor HQ do ano (ao menos, para mim): Pinóquio, escrita e ilustrada por Winshluss (pseudônimo do francês Vincent Paronnaud), editada no Brasil pela Globo, em capa dura com papel offset 180 g/m² (material bem grossinho), colorido, no formatão 21 x 29 cm, com 192 páginas e tradução de Carol Bensimon. Acredito que 95% do álbum é mudo. A narrativa é puramente gráfica, exceto por pouco momentos de pensamentos e diálogos do personagem Jiminy Barata (o inseto que se aloja na cabeça de Pinóquio, a fim de desempenhar papel similar ao do Grilo falante que se torna a "consciência" do personagem, na fábula que conhecemos). A colorização é uma obra de arte à parte, realizada por três artistas. Em vários momentos, as ilustrações mais bonitas da obra, em razão do apuro de cores - emulando ilustrações de livros infantis clássicos - ganham uma página inteira, funcionando como forma de divisão de capítulos. O tratamento editorial da Globo é quase impecável, se não fosse por um erro grosseiro que comprometeu bastante a compreensão do desenrolar da trama. No volume que tenho em mãos (não pude comparar com outros, vez que o comprei pela internet), a partir da página 144, pulam para a 155, retornando, em seguida, para a 153, continuando da 159 e, mais à frente, repetindo as páginas 155 e 156. As páginas inexistentes fizeram bastante falta, nos deixando sem compreensão de como Gepeto perdeu, novamente, Pinóquio, logo após resgatá-lo. Terei que baixar a obra em scans para ver o que faltou. Um grande e inescusável descuido por parte da Editora Globo, que fez lambança ao publicar o melhor gibi do ano. Na trama, o inventor Gepeto constrói um garoto de metal para uso militar, mas quando Jiminy Barata muda-se para um espaço em sua cabeça e muda alguns cabos, algo sai do controle. Pinóquio assassina a esposa de Gepeto - Svetlana, que utilizava o grande nariz do boneco para fins sexuais - e foge pelo mundo, encontrando de tudo um pouco, inclusive uma versão lésbica de Branca de Neve, mantida em cativeiro para ser explorada pelo Sete Sacanas. Violência, poluição ambiental, miséria e exploração humana de todo gênero permeia a jornada do boneco, tudo muito bem amarrado pelo autor, sem deixar a desejar em momento algum. Há espaço até para o mercado negro de órgãos humanos. Uma boa sacada (dentre tantas) foi a criação de um monstro marinho em razão do lixo tóxico despejado nos oceanos - no lugar da baleia da fábula escrita por Carlo Collodi - que acaba engolindo Gepeto e seu filho mecânico."

      https://kleiton1.rssing.com/chan-6165969/all_p1.html


      p.s.: sou muito bom em pesquisar hahahahah

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    3. Nossa, eu nem sabia que esse rss ainda estava ativo. Não cheguei a pesquisar. Mas fico grato por vc tê-la resgatado. Vou aproveitar e repostar com imagens da edição.

      Abraços!

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    4. Pra você ver como é: https://bloguedoneofito.blogspot.com/2017/02/pinoquio-de-winshluss-e-cagada-da.html

      Esta postagem já estava repostada, aqui, há anos! Nem recordava que a havia aproveitado.

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    5. o mais perto que cheguei de conseguir organizar isso foi colocando o nome do autor como marcador, mas nesse caso talvez passasse direto também

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