domingo, 4 de abril de 2021

Henry Borel e Little Nightmares

 

Então disse Jesus: "Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; 
pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas".

Mateus 19:14

Ainda opto pela compra de jogos eletrônicos em mídia física porque, comprando no formato digital, não teria desconto razoável e precisaria investir em HD externo. Para ter todos os jogos que já possuo, em mídia digital, penso que precisaria de ao menos um dispositivo de 8TB, o que custaria em torno de R$ 1.500,00. Não vejo sentido em ter esta despesa, ainda mais considerando que discos externos, com certo tempo, apresentarão problemas. Uma mídia física, em disco óptico, talvez jamais apresente problemas enquanto eu for vivo, se bem cuidada: da caixinha pro console, e deste pra caixinha. Se mídia digitais bem menos, até valeria a pena investir em HD, para que este se pagasse no longo prazo. Gostaria mesmo de não estocar caixinhas de games em casa. Mas financeiramente, no momento, pareceria meio burro.

A grande vantagem do formato digital, claro, está no acesso de produções antigas ou independentes, impossíveis de se encontrar em mídia física, salvo se nas mãos de alguns colecionadores. Joguei muita coisa antiga a preços módicos, comprando em regra na Microsoft Store. Um exemplo: comprei Silent Hill HD Collection por R$ 19,90. Em rápida pesquisa no Mercado Livre, achamos esses discos por até R$ 600,00 (Xbox 360) e R$ 270,00 (PS3). Não pretendo questionar. É o mundo do colecionismo e embarca nessas loucuras quem quiser. Mas tô fora.

Outro benefício de jogos em mídia física: podemos trocar ou vender, bem como emprestar aos mais próximos.

Assim, esses dias, adquiri Little Nightmares II da Bandai, em mídia física, pois gostei bastante do primeiro, jogado gratuitamente via assinatura Gold. É uma pena que, em regra, discos não se acompanhem de nenhum encarte, mini pôster ou algum impresso bacana, tipo colecionável. É apenas a caixa com o disco, nada mais. Mesmo assim, penso, mais viável do que comprar no formato digital, devido às razões acima expostas.

Acredito que, brevemente, leitores óticos de consoles se tornarão totalmente supérfluos, porque as maiores empresas do setor se recusarão a lançar seus produtos assim. Para elas, não vale a pena. Envolve produção e logística para ganhos similares à manutenção de lojas de mídias digitais, as quais afinal encontram-se devidamente estabelecidas e funcionando muito bem. Por enquanto, todavia, não me renderei totalmente a isso.

Voltemos aos joguinhos em apreço...

Na primeira parte de Little Nightmares, conduzimos a personagem Six, pequena e frágil, num mundo sombrio onde obesos devoradores de tudo o que encontram pela frente não perdoam nada e parecem nutrir desejos famélicos especialmente sobre crianças: vão direto para a boca, cruas. A trama se passa na descomunal embarcação The Maw, destinada a passeios gastronômicos insanos. Ao final, nossa "heroína" consegue destruir "A Queixa" que parecia chefiar tudo, absorve seus poderes sombrios, e sai para a liberdade. Na segunda parte do game (para mim, uma prequela), conduziremos o pequeno Mono entre florestas e, especialmente, na obscura The Pale City, e seremos responsáveis por salvar Six de um caçador-taxidermista. Ela, então, nos acompanhará em nossa jogatina até o final. Ao final, a surpresa: Six não parece tão "heroína" quanto pensávamos e mais se volta numa jornada em busca de poder do que qualquer outra coisa. Ela não vinha tentando sobreviver, mas, sim, me pareceu numa longa jornada de destruição em busca de conquistar mais força, traindo o próprio Mono ao final. Aliás, em Little Nightmares 2, os guris são perseguido por Thin Man e este, no final, ninguém mais é do que o próprio Mono futuro, na verdade tentando impedir que Six lhe dê esse destino trágico. Essas, pois, foram minhas impressões. A franquia terá continuações e acho que Six está numa jornada por Poder, apenas isso. Seu próprio ingresso na The Maw foi proposital para enfrentar A Queixa e lhe tomar os poderes, apenas isso. Veremos...

Independente de possíveis teorias sobre as tramas, fica algo ao menos claro: Little Nightmares mostra um mundo inóspito às crianças. Naquela realidade, crianças permanecem no medo constante entre professoras sádicas, médicos frios, pais ausente à frente da TV (hoje, à frente dos smartphones), entidades obscuras e numa briga constante entre si mesmas, quando entregues à própria sorte. No estupendo romance O Senhor das Moscas, William Golding tentou mostrar o homem em seu estado natural: cruel. Na trama, crianças largadas numa ilha barbarizam a si mesmas. É mais ou menos como Six, totalmente destituída de humanidade (ou, na verdade, tomada por ela em seu estado puro), traindo o próprio amigo que lhe salvou a vida.

Crianças são vítimas de parentes pedófilos, professoras maus-caracteres que descontam em alunos suas frustrações cotidianas, profissionais da saúde indiferentes (especialmente na rede pública) e dos próprios pais. São inúmeros os vilões. Neste momento, o caso do menino Henry Borel assombra o País assim como foi com Isabella Nardoni em 2008 e Bernardo Boldrini em 2014. Esses são casos em evidência, fora os milhares que nunca chegaram nem chegarão à superfície. Crianças convivem com os bichos papões imaginários e reais. E penso ser Little Nightmares sobre isso.

Neste momento histórico, crianças estão com medo, trancafiadas em casa, emburrecendo sem ir às escolas (ao menos os filhos de pobres, na rede pública), obrigadas a andar nas ruas com sufocantes máscaras de pano, sujas, babadas e ineficientes, vendo pais com pequenos empreendimentos fechados ou desocupados em casa. É mundo assombrado e assombroso.

Little Nightmares I e II são jogos aparentemente fofinhos logo de início, em cenários belamente construídos, boa mecânica, em plataforma e recheados de puzzles. Por vezes, exigirão habilidade no controle. Não sou bom nisso, mas é bom exercitar até mesmo para estimular nossos cérebros fadigados e coordenação motora. Em pouco tempo de jogatina com os personagens fofinhos, terror e sobrevivência tomam conta de tudo. Vale muito a pena.

Abraços assombrados e até a próxima.


10 comentários:

  1. "Neste momento histórico, crianças estão com medo, trancafiadas em casa, emburrecendo sem ir às escolas (ao menos os filhos de pobres, na rede pública), obrigadas a andar nas ruas com sufocantes máscaras de pano, sujas, babadas e ineficientes, vendo pais com pequenos empreendimentos fechados ou desocupados em casa"

    Corrigindo... As crianças estão sim emburrecendo, mas porque para elas não há como ir à escola como antes. E as crianças pobres normalmente nem gostam de ir à escola, então esse panorama caótico, para elas, caiu como uma luva. Elas não estão trancafiadas em casa coisa nenhuma. Elas estão na rua, brincando, soltando pipa, jogando bola ou olheiras do tráfico de drogas. Máscaras? As únicas que usam são as que estão irrabichadas aos pais. As crianças que estão felizes como pequeninos jumentinhos na rua não usam máscaras e vivem como pequenos Cascões, porque, para quem vive na rua, se sujar faz parte, e viva o sabão em pó. Essas crianças estão mais para o Pinóquio, naquele momento quando ele está em um lugar feliz da vida onde, aos poucos, vai se transformando num burro.

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    1. Olá, Fabiano.

      Como você colocou o “normalmente”, talvez esteja até certo. Mas as exceções, mesmo poucas, se dentro de um grande universo de amostragem, são muitas, por assim dizer.

      Posso falar pelo que vejo. Minha filha está perto de completar seis anos de idade e, em sua turma, há quatro crianças que estão realmente trancadas em casa, sem sequer ir à escola, pois os pais optaram por ensino virtual para elas.

      Nas salas de aulas (exceto infantil I, II e crianças com problemas mentais), é OBRIGATÓRIO levar quatro máscaras e passar o dia todo com elas. E como se quatro máscaras fossem satisfatórias. Máscaras de pano que mais se tornam objetos contaminantes do que EPIs. Ninguém usa direito, acho. Nem profissionais da saúde utilizam corretamente em hospitais. E antes de entrarem na escola, há uma mini quarentena, onde as crianças são obrigadas a manter total distância, medirem temperatura e lavarem mãos e bolsa escolar com álcool. Então é aterrorizante para uma criança.

      Tenho três colegas bem sucedidas na vida. As conheço há 20 anos ou mais. Uma, hoje, ocupa um cargo público que lhe rende em torno de 25 k ao mês. As outras duas são médicas (cárdio e cabeça-pescoço, todas formadas em universidade públicas, sem cotas). Elas moravam numa casa caindo aos pedaços e comiam o plantado pelo pai. A renda vinha da confecção manual de vassouras de palha. Uma delas ingressou para medicina na federal com 16 anos de idade. Nunca estudaram em escola particular. Isso é o que eu vi de perto. Recordo que a primeira pizza que elas comeram, há bons anos, fui eu que comprei. Ou seja: há exceções. Mas sei que você sabe disso, tanto que não afirmou isso a todos. E, claro, em boa parte concordo contigo porque sei bem como é o mundo, ainda mais entre pobretões.

      Enfim: há as exceções, vistas por mim, e são muitas.

      Abraços!

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    2. Não acho que seu lado seja exceção e nem o meu. Acho que são duas realidades que, querendo ou não, coexistem. A sua realidade é muito diferente da minha. Aqui as crianças só vão à escola porque senão cortam o bolsa família. Aqui a criança é estimulada a ficar na rua, pois a casa é pequena e a mãe não suporta a presença do filho fazendo arte dentro de casa. Aqui eles aprendem a falar "pulissa" antes de "papá" e "mamã". Essas crianças NUNCA usaram máscaras e está tudo bem. Seria maravilhoso mesmo se o Covid levasse esse o povo da Cracolândia, os violentos e criminosos. Mas o Covid está levando senhoras e senhores, homens e mulheres que trabalham e tem metas e objetivos. Minha irmã teve uma semana do cão porque, lá em Jundiaí, várias pessoas da família do marido dela faleceram agora de Covid. Pessoas que tinham vida ativa e pagavam impostos e desempenhavam papéis para o desenvolvimento da sociedade. Agora, esse povo peste está tudo muito bem, enchendo o toda de cerveja barata e droga a escolher, vendendo ou consumindo-a ali na esquina mesmo, ao som do sertanejo universitário lá nas alturas, para empolgar a mulherada.
      Obrigado por compartilhar sua realidade. Se um dia você abrir o portão da sua casa e dar de cara com dois manos preparando pinos de cocaína ou fazendo cigarrinho do bom, não estranhe, é o progresso daqui chegando até aí. Eles vão usar tua calçada como ponto de venda e você tem que fingir que não vê nada, senão vai se entender com o chefão da bocada. Nesse dia, aí, quem sabe, você vai entender um pouco como são as coisa por aqui, pois verá muitas coisas insólitas. Um mundo paralelo a um portão de distância.

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    3. Fabiano,

      compreendo perfeitamente essa realidade citada por você.

      Se, neste momento, eu quiser ver uma garota menor de idade fumando pedra na lata, só ir ao centro da cidade onde moro (70 mil habitantes). Pinos de pó não são comuns, mas pedra, pó na paradinha (trouxinhas) e subprodutos da merla (a qual já é um subproduto) há a rodo por aqui. Existe até delivery, feito por vários mototaxistas.

      Como você sabe, sou recifense. E Recife é uma das cidades mais sangrentas deste país. E cresci em Caruaru, próximo ao Morro Bom Jesus. Tive amigos que se perderam no mundo das drogas. Falei sobre isso rapidamente quando postei sobre a hq Kombi 95.
      Link: https://www.xn--blogdonefito-7hb.com/2020/11/kombi-95-hq-de-thiago-ossostortos.html

      Fui, durante um ano e meio, oficial de justiça no TJPB, onde andava semanalmente em favelas, entrando em casas de assassinos, estupradores, ladrões etc. Uma vez precisei fazer uma “entrevista” com duas meninas que eram estupradas pelo pai e com ele ainda dentro de casa. Isso não era tarefa minha. Mas a ordem saiu e eu fui. Já vi muita merda e conheço a realidade à nossa volta.

      A realidade mencionada por você é a todo o mundo. Isso já chegou às cidades pequenas. Não com a intensidade das grandes, certamente. E é por isso que não quero mais residir em cidades grandes, pois não compensa e o risco, em caso de calamidades humanas, são maiores. Não dá para brincar de The Walking Dead em Recife. Mas posso tentar onde moro, acaso merda aconteça.

      Aí, perto de você, podem haver crianças que tem/teriam/terão um bom futuro. Você pode desconhecer. Mas existem, sim.

      Nossas realidades não devem ser tão distintas. Mas certamente não tenho consumo de drogas na minha calçada porque se isso ocorrer, alguns moradores se juntaram e darão uma surra nos envolvidos. Por aqui ainda é meio assim… Podem curtir à vontade, mas longe de minha calçada.

      Não conheço o Brasil. Mas conheço toda região Nordeste de cabo a rabo. Morei em três Estados. E, meu amigo, tudo o narrado por você, quanto à sua realidade, é a de todos, com maior ou menor tolerância e intensidade.

      Abraços!

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  2. Nada contra físicos, tendo lugar na estante tá ótima. Ainda há a opção de guardar cd e encarte em fichários especiais e se livrar da capa de plastico

    Hoje, para mim, Acho q cerca de 10 jogos fisicos bastam por console.

    Ninguém vai jogar e voltar a jogar muito mais q isso no depois de 5 anos (expectativa media de vida de um console), salvo viciados

    Outros jogos seriam em formato digital...


    O futuro dos físicos é o lixo. Estão cada vez mais pobres.

    A própria indústria de games trabalha com emuladores, mas fala bonito dizendo "retrocompatibilidade".

    Pena que ela, em regra, simplesmente acabe emulando jogos antigos sem ter o trabalho de relançar o jogo com melhorias gráficas, sonoras etc

    Abs!

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    1. Fala, Scant.

      Pode não ser o lixo pois haverá todo um mercado para recebê-los, ao menos por um tempo longo.

      Percebo que há bastante mercado para ps2, ps3, 360 etc., até os dias de hoje. E sem falar de jogos em cartuchos, mas aí mais limitado. Eu mesmo já comprei jogo usado. Foi um bom negócio para mim e para o cidadão que me vendeu.

      Mas, claro, logo em breve NÃO existirá mais jogo em mídia física. Isso é realmente certo. Nem sei porque ainda produzem, observando bem. Os caras já mantém as lojas digitais funcionando muito bem. Podem parar de produzir isso tudo a hora que bem entenderem.

      Abraços!

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    2. "Nem sei porque ainda produzem," - especulo que seja para fins de sonegação fiscal e outras tretas contábeis, pois a mídia física teria menos controle que a digital, mas é só um chute

      abs!

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    3. Acho que procede. Boa sacada. Afinal, auditar bens físicos é sempre mais complicado, quando não impossível...

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  3. Faz tempo que não compro jogos, mas também creio que num futuro próximo só haverão jogos digitais. Isso elimina toda uma cadeia logística para o produtor e melhora o lucro (pelo menos olhando por cima). Do ponto de vista do empresário, deve ser a melhor situação.

    Antigamente, alguns jogos vinham com mapas e encadernadinhos contando um pouco da história do game. Não sei como é agora. Lembro que quando fui vender alguns jogos do meu PS3, no GTA 5, todo mundo queria saber se vinha com o mapinha da cidade.

    Acho que essa literatura de que o homem, no fundo, é cruel, está meio certa. Entretanto, acredito, piamente, que em alguns momentos, bem no fundo (após a máscara que muitos usam cair), a luz acende e adentramos um estado de pureza onde o bem vence, onde a ordem abarca uma parte do caos.

    Não estou por dentro do caso do menino e só fiquei sabendo devido a uma reportagem no Fantástico. Acho que sempre haverão esses casos. Mas creio que são uma minoria que temos que entender que existe e, simplesmente, aceitar, já que nada podemos fazer contra (não está em nosso círculo de controle até ocorrer).

    Alguns homens não são dignos da existência, fazendo coisas que imaginamos impossíveis de serem concebidas (algumas crianças também têm esse espírito ruim, maltratando outras por simples prazer). Infelizmente alguns arcarão com o custo dessa presença terrena maléfica, um diabo em carne e osso. A nós, os outros, resta tentar ao máximo conter esse monstro que cada um carrega, que ,vira e mexe, tenta subir a superfície.

    Abraços.

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    1. Olá, Matheus.

      Sempre estanhei porque vender o físico quando há toda a loja montada para o digital e amplo acesso a banda larga (ao menos para quem compra consoles e joga em PC). Mas penso que, além de estarem agrando certos nichos (se é que ligam para consumidores), talvez proceda o que disse Scant: aspectos sonegatórios.

      Mapas, manuais, “mimos” etc., só muito raramente. Quer dizer: manual, nunca. Mas às vezes rolam uns postais, mapas, bobagens. Coisas simples, que agradam aos colecionadores. Mas é muito raramente mesmo.

      Sempre desconfiei do bom selvagem. Mas talvez o homem possa mesmo estar em paz num estado mais puro, desde que não invadam sua área de casa, seu leito de rio ou comam sua mulher.

      Ações violentas assim existem aos montes, penso. Algumas passam batido devido à falta de estrutura legista. Há lugares onde alguém falece e no mesmo dia enterram de qualquer jeito. Casos como o do garoto chamam mais atenção devido à grande cidade onde ocorreu e a classe econômica dos pais.

      Não sei se foi Agostinho ou Aquino. Mas foi algum dos dois que, certa vez, mencionou que más ideias seriam como pássaros, sempre rondando nossas cabeças. Não podemos evitá-los, mas podemos não os deixar fazer ninhos. É mais ou menos isso com o que você falou sobre o monstro interior…

      Abraços!

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