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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Muito Velho para Morrer Jovem

 

Eu nas dunas do delta, já bastante velho para morrer jovem.

Conheci a obra de Nicolas Winding Refn por seus três últimos trabalhos: Drive, Only God Forgives e The Neon Demon. Se você nunca assistiu a nenhum desses filmes, recomendo que o faça logo. Quanto a Ed Brubaker, dispensa apresentações a leitores de quadrinhos. E é dessa dupla o diferente Too Old to Die Young, disponível na Amazon há pouco tempo. Não sabemos bem classificar a empreitada: série em uma temporada ou longo filme dividido em vários volumes? E talvez isso não importe tanto. É apenas uma bonita realização para quando você estiver com tempo de sobra e puder degustá-la.

Tomei conhecimento da produção tão logo disponível na plataforma. Contudo, procrastinei até o final do ano passado para vê-la. Não queria começar e interromper, e sabia que seria algo de lento consumo e digestão tardia. Não espere resoluções rápidas e passagem veloz entre os planos. Muito Velho para Morrer Jovem demora em tudo. Não há pressa. Isso certamente pode afugentar algumas pessoas. Sempre reclamo da enrolação em livros, quadrinhos, filmes e seriados. Coisas que poderiam ser mais rápidas e que rendem apenas para encher linguiça. Contudo, na obra em apreço, é diferente: a proposta é, sobretudo, fruição estética, aliada a boas tramas, todas desenvolvidas num faroeste contemporâneo, onde a imundície de Los Angeles é belamente retratada em fortes tons de cores primárias (marca de Refn, aliás).

O Estado da Califórnia é curioso. Se fosse país independente, teria uma das cinco maiores economias do planeta, sobretudo devido à produção tecnológica. Contudo, afunda-se na merda, literalmente. Literalmente porque o cocô nas ruas tornou-se grave questão sanitária, junto à mendicância extrema e guetos protegidos pelo Estado para consumo de drogas. O liberais fazem a cama onde a esquerda deita e rola. Se você for jovem e contratam-no para cuidar de um jardim, poderá ser preso, pois não está devidamente registrado na burocracia estatal e sindical, pois é necessário experiência ou bom apadrinhamento. Mas se você optar por cometer roubos até determinado valor econômico, a polícia não poderá prendê-lo em Los Angeles. Acaso queira viver numa cracolândia, todos os dias o Poder Público fornecerá seringas, cachimbos, água destilada, canudinhos e até mesmo hidratante labial. Mas não banheiro: tem que cagar na rua. A classe média trabalhadora não tem mais acesso à moradia. Acabaram-se as habitações e os entraves burocráticos impedem a expansão. Quem pode trabalhar remotamente, migra para outros Estados, especialmente para as localidades mais "caipiras", onde encontram segurança, "horríveis" valores tradicionais, ruas sem bosta, baixos impostos e menor interferência burocrática. O maior destino dos riquinhos progressistas californianos é... o Texas. Assim é a vida. Quando a merda esquerdista começa a feder, a gurizada corre logo para segurança conservadora.

Too Old to Die Young se baseia nesse mundo de luxo e sujeira californiano: policiais mal pagos e corruptos, máfias locais (as nativas e importadas, como cartéis mexicanos e Yakuza), tráfico de mulheres sobretudo para exploração sexual e patricinhas cheias do pó em festinhas milionárias. Ainda há espaço para a indústria lucrativa da pornografia ilegal e os ex-yuppies da era de ouro: hoje totalmente insanos e cheios da grana (e de heroína). E, claro: luzes fortes e neon para todo lado. O mais perto de um protagonista é o policial Martin Jones, vazio e soturno. É difícil dizer quem é ele ou o que se passa por aquela cabecinha. Como toda realização de Nicolas Refn, você precisa se dar à fruição estética, sem queixa pela demora. Até o movimento de câmera é demorado e os diálogos se dão com bastante espaçamento.

Gostei bastante de rever Jena Malone, a qual perdeu todo o encanto com o avanço da idade. Passa longe daquela garota que mexia com nosso imaginário. Aliás, até eu passo longe do que fui. Faz parte... E cansei do seriado, às vezes, não devido ao arrastado da trama, mas, sim, pelo excessivo apelo homossexual em diversos capítulos. A ambientação árida e o fundo western me recordaram - com ressalvas, obviamente - Onde os fracos não têm vez (filme e livro os quais indico sempre).

Quem acompanha este blogue, deve ter percebido que o ando atualizando pouco. Andei realmente envolvido com diversas atividades pessoais produtivas, cuidando de casa, viajando (finalmente pude navegar pelo Delta do Rio Parnaíba, entre  igarapés, lama, caranguejos e belíssimas ilhotas de dunas sempre em movimento), lendo bastante, jogando videogame e brincando com minha filha. E, em breve, retornarei ao trabalho. Penso que o ritmo aqui será mais arrastado este ano. Mas, ao menos, procurarei deixar algumas sugestões do que vale a pena compartilhar, como a produção ora indicada. Contudo, o ano será mesmo de mais dedicação à família, leitura, games, cinema e vida rural. E bem menos blogueirismo.

Abraços arenosos e até a próxima.

sábado, 7 de novembro de 2020

The Farm e a insanidade vegana

 

Ui, vamos parodiar a Santa Ceia. Ninguém fez isso antes!

E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.

Gênesis 1:26

Casal feliz dirige por terras áridas, para numa lanchonete e almoça suculentos hambúrgueres. Segue mais a viagem e se hospeda numa pousada sinistra. Após atacados durante o sono, despertam engaiolados. Em pouco tempo, percebem o sistema de tudo na fazenda onde eles serão os bichos para corte, leite e reprodução, juntamente com demais viajantes. E a isca foi no diner local, ao comerem carne. Seria uma espécie de vingança contra seus hábitos carnívoros: agora sentirão na pele o que é ser confinado para abate e alimentar canibais que passam o dia usando máscaras de animais.

A paisagem local lembrou bastante onde resido. Olhei até pela janela imaginando se aquele pessoal não viria bater aqui em casa. E filme on the road com desfecho trágico sempre fica melhor em paisagens desérticas.

Comecei a vê-lo porque queria alguma porqueira meio gore e, por coincidência, o serviço Prime mo indicou. Filme curtinho, valeria a pena tentar. Se ruim, não desperdiçaria bastante tempo. E não desperdiçou, pois a fotografia é bacana e a nojeira é meio o que eu aguardava. Mas a mensagem ali repassada... quanta idiotice.

Claramente, o objetivo é fazer você imaginar o que sofrem os pobres animaizinhos devorados por nós, onívoros. Os psicopatas canibais nada mais fazem do que justiçamento às pobres criaturas exploradas para nos fornecer leite, filhotes, couro e carne. Igual comemos leitão e vitela, o filme chega ao cúmulo de mostrar a execução de um bebê gerado e criado em cativeiro, o qual servirá de iguaria num grande banquete. E, como bons veganos, não perderam a oportunidade de escarnecer a fé cristã com a cena final, emulando a última ceia, onde duas mulheres são servidas qual porcos.

Repito: o filme vale a pena por ser curto e porque gosto muito de cinema lixo. Não perdia um Cine Trash da Band, quando guri. Contudo, é bem idiota em sua filosofia. Evidencia o viés mais insano do veganismo, que rejeita toda a natureza e a ordem natural das coisas e fala em asneiras quando iguala especismo a preconceito racial. Mal supõem eles que se os chimpanzés pudessem também nos colocariam em currais para engorda e abate. Já escapei de onça, jiboia e jacaré, onde moro. Ano passado, topei com uma jiboia toda enroladinha na árvore ao lado do quarto de minha filha. E ela não estava ali para zelar por nossas boas noites de sono. A natureza é assim. E isso é simples de entender e de se conviver. Neste exato momento, ouço a família de gambás residente sobre o forro de meu home office, cujos membros não pensariam duas vezes em arrancar meu couro se eu incomodá-los: são do tamanho de gatos!

Sempre pensei que a energia dos veganos seria melhor empreendida na luta por criação e abate limpos e humanizados, por assim dizer. Temple Grandin trabalha nisso há décadas, sem qualquer apoio de ativistas que perdem mais tempo com funerais em abatedouros, encenações histéricas em restaurantes e, agora, com filme mequetrefes que apenas evidenciam a insanidade extrema do culto. Eles podem não mudar o mundo (e torço para que não consigam), mas ajudariam bastante a melhorar a situação de criadouros e matadouros.

The Farm (Os Canibais, 2018) está, no momento, com nota 3.7 no IMDb. Alguns iluminados da turma do bem dirão que isso se deve à nossa ignorância, pois a produção traria uma crítica social foda e visão ácida sobre o consumo de carne. Por isso eles são iluminados: ninguém entende o que se passa por tais cabecinhas doentias, onde a vida de um saruê valeria o mesmo que a de nossas crianças.

Quando puderem, deem uma conferida nesta imundície de primeira linha.

Abraços onívoros e até a próxima.

sábado, 29 de agosto de 2020

O mundo fake em Arquivo X

 

The Springfield Files

"E aí, Fake!"
- Neymar Jr.

Conheci Arquivo X na Rede Record por recomendação de meu velho amigo Alex Quintas, com qual, gratamente, mantenho ainda hoje contato e tento trazê-lo a este blogue como co-autor ou colaborador eventual, sem êxito. Salvo engano, isso foi no ano de 1996. As memórias às vezes nos enganam. Na verdade, nem tenho mais certeza se foi este amigo que a recomendou. Aliás, sobre falsas memórias, o episódio de Arquivo X que aqui recomendarei também possui íntima relação com o tema. Voltando ao assunto... e desde aquele ano, este se tornou um de meus seriados mais amados, juntamente com Monk, Breaking Bad, Família Soprano, Além da Imaginação (série original, não as demais), Twin Peaks e A Sete Palmos. No momento, não ando com saco para conhecer novas produções. Posso estar perdendo boas coisas, mas estou de boa assim.

Estes dias, comecei a rever alguns episódios a esmo no Prime da Amazon. Especialmente os das "novas temporadas" (10º de 2016, 11ª de 2018). Os vi tão logo lançados, graças aos abençoados sites de streaming pirata. Até possuo aqueles dispositivos que recebem centenas de canais, incluindo a Fox. Mas não tenho paciência, mais, para ficar aguardando um programa na hora certa. O problema dos sites é deixarem a desejar na resolução. Assim, foi bom rever as últimas duas seasons nitidamente. O Prime vem se mostrando um ótimo serviço.

Arquivo X sempre nos deu o insólito. Este foi o objetivo. Nas loucas peripécias da dupla do barulho Scully/Mulder, tivemos criaturas bizarras que iam de alienígenas a seres primitivos, fantasmas, vampiros e lobisomens. E, esparsos em algumas temporadas, tínhamos episódios de "alento", por assim dizer. Serviam como válvula de escape à tensão do seriado. Foram momentos de ótimo humor, onde o show parodiava a si mesmo. Às vezes, o objetivo era apenas sair da rotina. E, nessa esteira, tivemos pérolas como as relacionadas a seguir:

  • "War of the Coprophages" (3ª, 12º)
  • "Jose Chung's From Outer Space" (3.ª, 20°)
  • "The Post-Modern Prometheus" (5.ª, 5°)
  • "Bad Blood" (5ª, 12º)
  • "How the Ghosts Stole Christmas" (6ª, 6°)
  • "The Unnatural" (6ª, 19º)
  • "X-Cops" (7ª, 12°)
  • "Hollywood A.D." (7ª, 19º)
  • "Mulder and Scully Meet the Were-Monster" (10ª, 3º)

Além dos acima (os que me vêm à memória), achei bastante divertido "The Lost Art of Forehead Sweat" (11ª, 4º), onde não apenas satirizam a mitologia da caça aos homenzinhos verdes como, também, se debruçam sobre o fenômeno moderno das fake news em massa. Digo em massa porque, hoje, qualquer zé-ninguém pode ser autor de mentiras disseminadas a rodo. Antes do advento da banda larga, apenas grandes emissoras de rádio/TV e donos de jornais/revistas detiveram o monopólio da mentira, edificando fortunas sobre essas práticas. Na trama deste episódio, Reggie "Algumacoisa" aborda a dupla e afirma ter integrado os Arquivos X desde seu início. O que houve? Eles apenas não se recordam. Constantemente, a historia cultural americana estaria passando por reformulações. Daí viriam, por exemplo, nossas falsas lembranças. Nos deparamos, ainda, com o Doutor Eles, sempre à frente de experimentos nesse sentido e, atualmente, contumaz produtor de fake news. Num breve diálogo, Mulder afimar crer na existência da verdade. E, quanto a isso, concordo com ele. Creio na existência de verdades, diferentemente dos relativismos que tentam nos enfiar a fórceps, sem lubrificação, todos os dias. O Dr. Eles também concorda que a verdade exista, mas questiona: "E quem se importa?". E esta pergunta encerra tudo. No mundo onde vivo, observo a verdade lá fora, fatalmente exposta. E percebo que, realmente, ninguém se importa.

The Truth is out there. And maybe no-one cares.

Arquivo X mudou. As duas últimas temporadas retratam o novo mundo, totalmente repaginado e cheio de lacração sobre assuntos supérfluos erigidos a temas de suma relevância global. Minha amada série seguiu em frente e tentou retratar este Admirável Mundo Novo e, ainda assim, continuou excepcional e divertida. Além disso, no episódio ora indicado, ainda prestam homenagem a The Twilight Zone.

Se nunca assistiram a Arquivo X, esta é uma boa oportunidade. Se a conhecem, confiram os episódios aqui sugeridos. Salvo engano, também está disponível na horrível Globoplay.

Abraços verdadeiros e até a próxima.

Imagem de meu acervo pessoal.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Um mundo sem erudição em Jogador N.° 1

Pôster Ready Player One by Harlan Elam


- E o que é real, o que é?
Animatrix, Uma história de detetive


Ernest Cline encontrou o mote perfeito para escrever um romance declarando seu amor aos anos '80, especialmente em relação aos videogames. Em seu livro Jogador N.° 1, o quase trilionário James Halliday, devastado pelo câncer, próximo do fim e sem herdeiros, elabora o concurso a se iniciar em seu post mortem. Usuários do OASIS, seu super videogame de profunda imersão em realidade virtual, deverão encontrar o misterioso easter egg plantando, pelo magnata, no sistema, após três fases de jogo. Em todas as fases, o conhecimento em cultura pop oitentista é imprescindível: música, séries, filmes, games e tudo quanto é porcaria. Surgem, então, os caça-ovos e oologistas culturais, empreitada onde diletante (noob?) não entra.

OASIS não é apenas acrônimo para Ontologically Anthropocentric Sensory Immersive Simulation. A realidade criada após imersão representa, deveras, um oásis em meio a imundície do anos de 2044, época da história: fome, doenças, crise energética, falta de habitação e violência extrema. Você pode sobreviver miseravelmente num cubículo se puder existir a maior parte do tempo no OASIS, onde trabalhará, estudará e terá a maior parte de sua interação social. Prático e agradável, em oposição à realidade.

O título original do livro é bem mais interessante do que o nacional. Ready Player One possui relação com a obra ao destacar aquele momento onde, nos arcades (fliperama com monitor), verificávamos esta mensagem antes do início do jogo. Além disso, é a mensagem escolhida por James Halliday para o momento pós login em seu magnífico sistema.

Ernest Cline é co-roteirista da adaptação ao cinema, realizada por Steven Spielberg. Este, aliás, nome constantemente citado na obra escrita, diante de sua relevância à telona nos anos '80 e seguintes. Não preciso, aqui, me perder citando seus filmes icônicos. O bacana nesta adaptação é não tentarem ser fiel à ideia primeva. A produção cinematográfica é simplória. Os três níveis percorridos pelo protagonista da trama - o jogador Wade Watt, avatar denominado Parzival, quando imerso  - são bem extensos, complexos e apegados a minúcias culturais para sua resolução. Não havia como levar tudo às telas.

Transitei bem tanto pelo filme quanto pelo romance, pois o refugo cultural americano da década perdida tem papel relevante em minha formação. Quanto a jogos eletrônicos, conquanto eu não seja gamer, convivi bastante com videogames da 2ª até a 4ª geração, como mencionei em postagem anterior. Além disso, por ser curioso em tecnologia, conhecia muito bem a pré-geração de games e dados sobre a produção de consoles e cartuchos durante anos a fio. Mesmo assim, em ambas mídias, fiquei meio perplexo como o futuro de Cline é pobre não apenas materialmente, num mundo colapsado economicamente. Ele também é pobre culturalmente. Não há resquício de erudição na Terra. O único conhecimento valorizado é acerca de toneladas de lixo popular.

A porcaria abunda na produção cultural popular. Isso é fato. Claro que, ao chafurdar no lodaçal, você encontra realizações que merecem, realmente, recordação constante. Assim, por exemplo, me deliciei com tantas menções aos filmes de John Hughes, os quais me faziam querer ser um jovem ianque na Shermer High School. No filme, há destaque especial a'O Iluminado de Stanley Kubrick, adaptação odiada por Stephen King. Achei este momento legal, embora não exista no livro. Neste, os filmes mais destacados são três que igualmente amo: Jogos de Guerra com Matthew Broderick, Blade Runner (obra prima cyberpunk de Ridley Scott) e Monty Python - Em Busca do Cálice Sagrado. O primeiro foi relevante em minha infância e o terceiro, o qual conheço desde adolescente, possui maior relevância emocional em minha vida após me ser reapresentado por alguém especial, quando na vida adulta. Os Cavaleiros que dizem "Ni", na trupe de Python, ganham contornos mágicos em nossas vidas quando fazem sorrir, a nosso lado, a pessoa amada.

O livro é divido em três partes. Ou melhor: três níveis de jogo. A cada nível, os caça-ovos precisam encontrar chaves (cobre, jade e cristal) para abrir três portões. Nessa empreitada, precisam disputar alguma partida de videogame vintage, associar conhecimentos culturais diversos e representar alguma personagem cinematográfica, do início ao final, ganhando ou perdendo pontos por fala, ação e até mesmo entonação de voz. O grande jogo de Halliday é, essencialmente, um RPG colossal.

Outro mérito do livro é destacar os jogos de tabuleiro, com ênfase em Dungeons & Dragons e constantes menções ao seu co-criador Gary Gygax. Logo após, mencionar a evolução do RPG para computadores pessoais jurássicos, onde você se divertia lendo o texto gradualmente lançado no ecrã, sem imagens, e respondendo às perguntas. Daí, o jogo seguiria o caminho "x" ou "y" a cada resposta ou conjunto de respostas. Quando criança, via pessoas mais velhas jogando RPG de mesa, com canetas, caderninhos para anotações e caralhada de dados. Achava fascinante, mas nunca joguei. Apenas admirava a beleza dos livros, dados e alguns cartões. Também cheguei a ver jogos vendidos como suprimento de informática, até mesmo em disquetes de 5 ¼”. Quando guri, tive acessos esporádicos a um PC monstruoso com esse floppy disk, mas eu era muito pequeno e não sabia como usar aquele troço e sequer recordo que máquina era aquela. Mas me encantava.

Ainda sobre Gary Gygax, em dado momento seu nome é posto ao lado de Bill Gates. E isso me recordou algo: a relação entre Ogden "Og" Morrow e James Halliday, no romance, tem muito a ver com a amizade entre Gates e Paul Allen, a qual mencionei brevemente em postagem anterior. "Og" possui muito de Paul Allen, especialmente o estilo de vida descolado, associando lucro a fascismo e tendo saído cedo da vida corporativa para desfrutar seus bilhões num cotidiano de luxo e excessos, enquanto vomitava mantras batidos sobre os males do capitalismo.


Tributo aos anos 80' por Jim'll Paint It

Voltemos à pobreza cultural da obra. No filme, não encontramos nenhuma referência erudita. Mas no romance, há ao menos umazinha. E decisiva! No cinema, apenas no jogo Atari Adventure é onde se encontra o enigma final a ser solucionado. Sempre gostei deste joguinho e recordo de minha infância, conquanto nunca tenha encontrando o easter egg de seu criador, Warren Robinett. Em alguns documentários como A Era do Videogame ou A História do Videogame, sabemos que a Atari tornou-se arbitrária com seus designers e programadores, quando foi adquirida pela Warner e chefiada por Ray Kassar, ignorante no assunto. Quando programadores geniais a exemplo de David Crane exigiram melhores salários e reconhecimento, foi de Ray a célebre e estúpida colocação de que não haveria diferença entre o designer de sucessos comerciais e o "John Smith" que montava o cartucho na esteira de produção sabe-se-lá-onde. É como querer atribuir idênticos salários a um Médico Cirurgião e ao zelador da clínica. Não sejamos românticos, colegas. Trabalhos distintos pedem prestígios e retornos distintos. Logo após, vários caras saíram daquela bodega e montaram a hoje poderosa Activision. Robinett foi mais brincalhão: escondeu seu nome no jogo Adventure, atestando ter sido sua, e não da Warner, aquela criação. Já no romance, antes de Adventure, Wade/Parzival precisa jogar Tempest, também da Atari. Ele é pego de surpresa com o desafio, mas as pistas foram deixadas às claras pelo magnata defunto.

Na trama escrita, a arrogante garota geek Samantha Cook - vulgo Art3mis - afirma que Tempest, no terceiro nível, seria óbvio. O de cujus havia consignado em seus registros que "É preciso deixar um pouco mais difícil essa conquista, para que a vitória fácil demais não desmereça o preço". Tal citação é de Shakespeare em sua última peça: A Tempestade.

Enfim: não sou erudito. Mas sei que devemos manter contato com a erudição e não ceder integralmente à estética maleável, açucarada e gordurosa da cultura pop. Certamente, nesta, encontramos bons e relevantes feitos à nossa formação. O ponto está no equilíbrio entre ouvir os grunhidos roucos de Axel em Guns 'n Roses e as variações para cravo de Johann Sebastian Bach. Existência apenas de punhetação no mundo que hoje denominamos "geek" (palavrinha tão fedida quanto "nerd") é, creio, miserável.

Esta postagem foi elaborada mais para quem ao menos assistiu ao filme. Por isso não me estendi tanto quanto ao enredo e demais detalhes e referências. De qualquer forma, se você desconhece a história, assista-a: é bem divertida para quem está na casa dos quarenta anos e manteve contato com cultura pop em sua pobre formação em clássicos da Sessão da Tarde e fichas de fliperama. Quanto ao livro: boa leitura, dinâmica, esperta e faz valer o tempo dedicado. Certamente não é uma obra prima e, creio, sequer o autor nutriu tal afã.

Durante algumas passagens, você sentirá o texto meio artificial, como se o autor tentasse forçar a barra para encaixar o máximo de referências culturais por página. Mesmo assim, o resultado, como alhures dito, foi satisfatório. O oposto se deu em Armada, seu segundo romance o qual, creio, comentarei mais à frente neste blogue. Armada é bacana se lido descompromissadamente; porém, pobre ao tentar repetir a fórmula de Jogador, com tanta forçação de barra nas referências sci-fi que pode, às vezes, dar vontade de abandonar a leitura.

Fico por aqui. Abraços oitentistas e até a próxima.



Porque ler de graça é mais gostoso...

sábado, 4 de janeiro de 2020

Bacurau e Bruno Garschagen


Lá em cima daquela serra,
passa boi, passa boiada,
 passa gente ruim e boa,
passa a minha namorada.

Quadra de desafio, epígrafe em Sagarana de João Guimarães Rosa

Devido a hábitos noturnos, algumas pessoas me chamavam, na adolescência, de bacurau, pássaro típico em nossa região. Esses dias, apareceram muitos aqui nas imediações da grande propriedade rural ao lado de minha casa; e, à noite, em meu quintal, ouço-os piar junto às corujas. Nos mourões de madeira da cerca em frangalhos ao lado de casa, não raro me deparo com olhares quase arrogantes desses pássaros. Mas os que encantam e amedrontam são mesmo os das corujas que, felizmente, abundam aqui. Quando criança, eu achava que coruja e bacurau eram idênticas espécies de aves.

Conheço bem não apenas o semi árido pernambucano mas, posso afirmar, quase todo o nordestino. Nestas terras sofridas, há de tudo um pouco, tolhendo nossa dignidade. Comentei brevemente sobre os rincões sertanejos quando indiquei a HQ Moonshine. Mantenho uma atávica relação de amor e ódio com essa terra tão cruel e, a esse respeito, já teci alguns comentários em postagens avulsas neste blogue. A terra o molda, como tentei esboçar nas resenhas de A voz do fogoOnde os velhos não têm vez. Kleber de Mendonça Filho é meu conterrâneo e alega conhecer bem o sertão, além de possuir o mesmo prenome que meu irmão. Não creio, contudo, que ele tenha tanto conhecimento assim dessa região, exceto no aspecto panfletário quando precisa invocar elementos do semi árido para ilustrar suas ideias confusas sobre a relação entre o Estado e os indivíduos.

Em sua obra Pare de Acreditar no Governo - Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o Estado, Bruno Garschagen inaugurou o que, agora, convencionamos chamar de "paradoxo Garschagen". E esse aspecto da conturbada psique brasileira é, sem querer, bem revelada no filme Bacurau de Kleber Mendonça. Numa trama divertida para se ver quando não há nada de mais produtivo para ocupar o tempo, sofridos habitantes do povoado que dá nome à película têm sua região "apagada" dos mapas, ficam incomunicáveis e passam ser caçados por norte-americanos endinheirados com a ajuda do Prefeito local e pessoas "do sul" brasileiro.

De plano, percebemos os delírios juvenis do cineasta quando pinta os gringos de malvadões que compram tudo, até mesmo vidas de pobres nordestinos em prática desportiva com armamento vintage. Que metáfora pobre! E vai mais além: pinta os habitantes de Bacurau como pessoas boas, destemidas, bastante cultas e esclarecidas, sempre aguerridos na defesa de sua vila. A má fé fica evidente no velho recurso de jogar homens contra mulheres, pretos contra brancos e, mais ainda, "sulistas" contra nordestinos. Você precisa ver tudo com bom humor para não enjoar de tanta groselha.

Como falei acima, conheço bem nosso semi árido e sei que, nos Bacuraus da vida, não há nada de mais: gente ruim e boa, ignorantes e valentes, otários e exploradores. Os pequenos povoados brasileiros são apenas microcosmos brasileiros: cheios de filhos da puta, como as grande metrópoles. Cada um por si e todo mundo querendo se dar bem sobre o outro. Acho até compreensível quando, jovens bobos, erguemos bandeiras regionalistas de superioridade moral, atacamos o imperialismo ianque e nos reputamos o suprassumo de valores nobres, como honestidade, integridade e inteligência. Só não compreendo como homens maduros, a exemplo do cineasta, continuam com tal pensamento tacanho.

Em algo o filme acertou: fundamenta bem o paradoxo Garschagen. A trama saiu da mente de pessoas que advogam mais Estado, mais mimos regionais e ações afirmativas. O Estado, na cabeça dessas pessoas, deveria ser o grande provedor de bem-estar, pois é nele que devemos depositar confiança. As coisas estão mal? tome-lhe mais Estado! Kleber de Mendonça é daqueles caras cuja mentalidade revolucionária pede uma legenda política forte e populista à frente da máquina, para, inflando-a, promover a justiça social. Só que o vilão-mor em seu folhetim ideológico é o... Prefeito.

Amiúdes: veja Bacurau. É divertido e a estética sertaneja é sempre bacana na tela. Só não espere muita inteligência diante de ideias e ideais tão conflitantes, além dos velhos mantras e clichês típicos de mentes ditas revolucionárias.

O filme está disponível para aluguel on line, mas certamente busquei meios gratuitos para vê-lo, pois quem visa a lucro é burguês sulista, babão de gringo e apoiador do imperialismo ianque. Precisamos socializar conteúdos. Logo, eu mesmo que não pagarei para ver filme nacional, cáspite!

Abraços aguerridos e até a próxima.


Photo by cmonphotography from Pexels

- As corujas podem não ser o que parecem, mas ainda assim têm um papel fundamental: 
elas nos lembram de olhar para a escuridão.
Coronel Douglas Milford em A História Secreta de Twin Peaks

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

O bromance imaginário em Dois Papas

"Óia as bostas que fazemos aqui, véio camarada."

Há coisas que o filme Dois Papas de Fernando Meirelles não mostra. Assim, por exemplo, não cita o discurso de Joseph Ratzinger no Bundestag, quando, em resumo, destacou a necessidade urgente do Ocidente em defender as heranças da fé cristã, do direito romano e da filosofia grega. Durante esse discurso, algumas das pessoas mais poderosas da Europa saíram do Parlamento. Também nada citou da preocupação de alguns setores cristãos com o avanço da revolução cultural em seu seio. Na trama de Meirelles, o vasto conhecimento histórico, humano e cultural de Bento XVI a justificar suas preocupações foi soterrado pela conduta de padrecos tarados em transar com coroinhas.

Na contramão, a mudança de Jorge Bergoglio para melhor - sua humanização, por assim dizer - se dá após contato com obras voltadas à teologia da libertação, onde cada verso bíblico é politizado sob a batuta da luta de classes, a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire (o gênio das frases desconexas) e algumas outras porcarias gramscianas. Francisco, pois, é o Papa bacana e esclarecido - ao contrário de Bento XVI, câncervador, antiguado e eterno acólito da juventude hitlerista.

Tento imaginar como Joseph Ratzinger sentiu-se ao ser sitiado, no Vaticano, por forças sombrias que queriam, a todo custo, avançar o "motor da História" para elevar ao Pontificado o extrato do que há de pior no globalismo. Isso, em momento algum, foi abordado. Na trama, o velhinho pediu arrego porque estaria "cansado".

Mas o filme é bom? Sim, é bacana. No final das contas, traveste de ternura o pouco que sobrou da Igreja. Quando estiver com tempo livre, assista. Jonathan Pryce e Anthony Hopkins estão impecáveis na película e, em diversos momentos, nos fazem ver, em suas faces, as verdadeiras personagens históricas.

Indico este filme porque, em seu âmago, conquanto tente dar uma conotação partidária muito forte a sacerdotes católicos e seu papel no mundo, ao menos o faz com certa dignidade. Diferente, por exemplo, do que vimos no panfleto ideológico do Porta dos Fundos com sua produção natalina. Quanto a esta turma, destaco que acompanhei o canal desde seu primeiro vídeo, logo após o sucesso de suas esquetes curtas CSI Nova Iguaçu. Na época de conexão discada, fui assíduo leitor do site Kibe Loko, aliás. Ressalto, ainda, não possuir qualquer problema com sátiras de qualquer ordem e abomino o politicamente correto. Comentei brevemente sobre isso, aqui, quando citei o que considero ser o pior gibi lido por mim. Existe, neste caso do Porta dos Fundos, a mesma intenção de ataque gratuito e sem graça a toda uma comunidade religiosa, especialmente aos evangélicos. Tentaram apenas ofender, deveras. Sou contra, no entanto, qualquer forma de censura ao conteúdo e até mesmo judicialização do imbróglio. Penso que, num regime de mercado, o que você pode fazer é apenas não consumir ou boicotar realizações negativas. E só. Para não me estender muito sobre o assunto, recomendo apenas a opinião de Luiz Felipe Pondè a respeito, abaixo.

Abraços litúrgicos e até a próxima.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

O Americano ou Um Homem Misterioso [ romance de Martin Booth ]


Assisti a Um Homem Misterioso dois anos após seu lançamento. Gostei bastante. Chamou minha atenção o aspecto silencioso da produção, onde apenas o essencial é dito. Depois, topei com o romance que deu origem ao roteiro e pensei: por que não comprá-lo? Nunca havia lido nada de Martin Booth (conquanto o conhecesse pela boa reputação) e pareceu bem vinda a oportunidade. A edição da Record é decente: brochura com orelhas, papel off-white de boa gramatura e fonte generosa. Assim, não cansamos tanto a visão. A tradução é de Marcelo Schild e a capa segue o padrão antigo da editora: emular o pôster da adaptação cinematográfica, com direito até mesmo à ficha técnica na quarta capa. Acho isso brega e de uma falta de criatividade tremenda. Entretanto, compreendo que são meios encontrados pelo mercado para promover a obra nas prateleiras (físicas ou eletrônicas). E, provavelmente, está dando certo.

O cinema apenas adaptou alguns elementos centrais da obra escrita. Gosto disso. Não me atraem tanto produções que tentam levar à tela todos os elementos do meio primevo. Penso que muita coisa é intraduzível de uma mídia para outra, e que a tentativa de quebrar essa barreira quase sempre mostra-se insatisfatória. Já comentei acerca desse fenômeno numa postagem antiga intitulada Terror Elegante: Fome de Viver e Coração Satânico. No filme, o mote é simples: homem misterioso chega a pequeno vilarejo italiano para se esconder de possível perseguição e, ao mesmo tempo, atender ao que seria sua última encomenda: adaptar uma arma e lhe dar abafador de ruídos. Durante esse tempo, o armeiro é visitado pelo “habitante das sombras” que lhe parece ser uma ameça à vida e, ao mesmo tempo, mantém temor constante até mesmo em relação ao seu antigo colega de trabalho.

No romance, a história é mais longa e complexa, obviamente. O armeiro disfarça-se de pintor de borboletas (daí sua alcunha na região: Signore Farfalla; no filme, esse nome nunca é dito e o ator George Clooney se limita à tatuagem de borboleta evidenciada discretamente). Ele pensa em viver naquele vilarejo após concluir seu último trabalho e, talvez, ter como companhia para o restante de sua vida a bela Clara, universitária prostituta com quem se encontra esporadicamente. A amizade entre o protagonista e o padre Benedetto é bem explorada, com bonitos momentos de conversas entre amigos numa agradável varanda com a qual até temos uma certa satisfação a imaginando. O desenrolar da trama mudou essencialmente. O habitante das sombras que estabelece a vigília de Farfalla tem grande importância na conclusão do livro; já a atiradora, não, limitando-se apenas à compradora do produto. A relação com Clara é bem intensa e envolve idas à restaurante, passeio e até mesmo surubinhas com uma amiga da universitária. Como, no livro, o protagonista reside na Itália já há bom tempo, ele possui um pequeno círculo de amigos bem diversificados. Não é tão solitário quanto no cinema.

No cinema, a trama inicia-se com o assassinato de uma possível namorada de “Farfalla” por ele mesmo, como forma de proteção após escapar de uma emboscada. No romance, tal evento é melhor detalhado mais ao final da trama. E como este fato fechou ainda mais o armeiro a relacionamentos estreitos.

O livro é bom. Vale a pena como entretenimento rápido. Suas mais de 360 páginas são lidas rapidamente, embora o autor pudesse ter suprimido várias páginas se purgasse o texto de descrições repetitivas e outras supérfluas. Se você espremer bem o volume, acho que daria uma novela de duzentas páginas num ritmo mais dinâmico. O estado espiritual do Sr.° Farfalla é repetido à exaustão, seus planos, divagações e sonhos. A paisagem urbana e campestre do vilarejo também, assim como a residência de nosso anti-herói. Além disso, percebemos que o autor repassa ao fabricante de armas (artista, como gosta de ser visto) suas introspecções pessoais. E, colegas, como a cabeça de Martin Booth é confusa! Ele nos cansa um pouco com suas críticas à sociedade moderna, despojada e com ânsia de revolução (viciada pelo progressismo sem meditação) e, ao mesmo tempo, volta atrás para atacar instituições tradicionais, especialmente a Igreja. Vai entender. Em um momento, por exemplo, ele nos repassa o mantra conservador: “É melhor mudar o modo como um homem percebe o mundo do que mudar o mundo que ele percebe.” (p. 50). O reacionarismo negativo (sim, há o positivo) de Martin Booth fica ainda mais evidente nas linhas abaixo:
No centro do Corso, fechado para todo tráfego exceto para ônibus e táxis, os quais são poucos nesse horário, homens caminham de braços dados, às vezes de mãos dadas. Esta não é uma cidade de bichas, um antro de veados, uma mina de ouro para o charlatão com um tratamento para a Aids feito de sementes de damasco amassadas com quinino. É a Itália na qual homens ficam de mãos dadas enquanto conversam sobre as esposas, amantes, sucessos nos negócios e os fracassos do governo.
Entre essas oscilações meditativas do autor refletidas em seu anti-herói, onde valeria a pena tentar mudar o mundo, deixar sua marca na história a todo custo (como um bom demente iconoclasta), ainda há momentos onde ele observa que apenas a morte muda algo, especialmente (ou essencialmente) de personalidades influentes. Assim, chega a asseverar num parágrafo de uma frase só: “Somente assassinatos alteram o mundo” (p. 264). E, para reforçar ainda mais a “bipolaridade” (ou melhor: esquizofrenia literária do Martin Booth), o armeiro, após destilar todo o seu ódio e descrença na Igreja, trava amizade íntima e confidente com o pároco local, homem extremamente convicto da fé que professa. E, após disparar contra tudo e todos, Farfalla ainda nos assusta afirmando (p. 305):
Vivemos no final do século XX, evitei cuidadosamente usar o nome do Deus cristão em vão. Tenho respeito pelas religiões dos outros: afinal de contas, trabalhei para várias causas – islamismo, cristianismo, comunismo. Não tenho a intenção de depreciar ou insultar as crenças alheias. Nada pode ser ganho através disso, salvo controvérsias e a satisfação dúbia do insulto.
Um fato curioso encontrado em livre pequisa minha na internet é que, após a divulgação do filme, a Bantam Books publicou o romance com o título cinematográfico The American, destacando em letras menores “Previously published as A Very Private Gentleman / Now a major motion picture”. E a capa do volume foi a mesma escolhida pela Record. Achei isso meio assustador. Não bastasse a influência do cinema na escolha da capa, chegou-se ao ponto de alterar o nome original da obra. E veja mais: neste caso, The American para o romance é um desastre. É que, na obra escrita, não sabemos a nacionalidade do Signore Borboleta. Os nativos acham ser inglês. Entretanto, tudo é obscuro. Grande bola fora do mercado editorial. E, penso, falta de respeito com o autor, falecido em 2004. Acredito que, atualmente, o copyright pertença à família do escritor, que está cagando e andando para seu legado, desde que dê bastante lucro antes que caia em domínio público. Mas prefiro não julgá-los demasiadamente, pois todo mundo gosta de bufunfa graúda na conta bancária.

Bom, é só isso que tenho a comentar acerca do livro e seus paralelos com a adaptação cinematográfica sem entregar muito da trama. Abaixo, deixo os colegas com duas ótimas cenas onde nada é dito com palavras: quando o armeiro fabrica o supressor e, depois, o teste no campo ao lado da belíssima Thekla Reuten.

Abraço allegro ma non troppo!


domingo, 20 de outubro de 2019

Coringa, Movimento Antimanicomial e Anarcocapitalismo


"Humor não é um estado de espírito, mas uma visão de mundo." 
(Ludwig Wittgenstein)

"Pensava que minha vida fosse uma tragédia, mas agora me dou conta de que é uma comédia."
(Arthur Fleck)

Faz dias que vi Coringa e fiquei de alma lavada. Após tantas produções meio-boca e marromenos realizadas sobre personagens de quadrinhos - onde, em momentos de vida ou morte, o super-super bem apessoado encontra tempo para piadinhas infames -, surgiu Coringa, com toda uma estética impecável de época, sombrio e destituído de quaisquer romantismos sobre bandidos e mocinhos. Embora, na trama, os pais de Bruce ainda estejam vivos, a imagem do herói fica a cargo do médico e magnata Thomas Wayne, que não nos desperta empatia, é arrogante e, aparentemente, mau caráter. 

Muitas coisas ficam no ar acerca da paternidade de Arthur Fleck (o doente mental problemático, psicótico, que viria a se tornar temido vilão de Gotham). E este vilão, por sua vez, conquanto violento, impulsivo e quase desumano, igualmente não nos desperta nenhuma empatia. Não há beleza no Coringa. Ele não é sagaz. Chega, aliás, a ser burro, quando não consegue sequer compreender o funcionamento do mundo à sua volta, como quando está numa apresentação de comédia stand up e não entende nada do que se passa ali. Suas anotações no que deveria ser um diário não possuem nexo, nenhuma lógica. O cara é apenas um asno porra-louca que, abandonado pela sociedade (cada um cuide de seu próprio traseiro), explode e começa a dar pipoco para todos os lados.

Similar ao Batman de Tim Burton (1989), jogam para o palhaço a origem do Cruzado Encapuzado. Comentei um pouco sobre isso na postagem Já dançou com o demônio sob a luz do luar?, onde o vilão, bem mais velho que Bruce, não só tem origem inventada por Sam Hamm (roteirista) como lhe é atribuído o famoso duplo homicídio no Beco do Crime. Na obra de 2019, tentam, de outro modo, fazer o mesmo. Nesta última trama, Arthur Fleck dá início à onda de revoltas na ruas, a qual culmina nos homicídios. E o resto... Bem, o resto é uma história que dura quase oito décadas.

Os guerreiros da justiça social, detentores do monopólio da virtude, fizeram lobby contra o filme. Então, outro motivo para querer vê-lo. E fiz questão de ir ao cinema. Valeu cada centavo. É natural que a turma do "mimimi" não goste de produção com temática subjacente "incel" ou "mgtow" (termos modernos que, francamente, não me agradam). E mais: Coringa possui natureza essencialmente anarcocapitalista, voltando-se contra o sistema representado por Thomas Wayne: endinheirado com poder político, ícone do corporativismo estatal; essencialmente, um metacapitalista (termo e definição cunhados por Olavo de Carvalho).

Devido a esse ativismo acéfalo, esqueceram do ótimo mote, trazido pelo filme, para discussão mais oportuna: a doença mental, em todos os seus aspectos mais tenebrosos: dor, solidão e violência. Fleck é vítima do Movimento Antimanicomial, luta da esquerda global que, essencialmente, busca apenas o caos e a desordem familiar, a miséria das cracolândias brasileiras e sofrimento humano.

Valeria a pena ter se investido tempo nessas discussões, e não se perguntando por que Coringa não come ninguém.

Fico por aqui. Abraços insanos e até a próxima.

domingo, 13 de outubro de 2019

Eastrail 177 Trilogy e o Übermensch possível


"Vede; eu anuncio-vos o Super-homem: "É ele esse raio! É ele esse delírio!"
De Assim falou Zaratustra, por Friedrich Nietzsche

Em 1982, Alan Moore nos contou uma grande história de super-heróis. Nela, Micky Moran - homem de meia idade fora de forma que faz bico de repórter para sobreviver - descobre ser Miracleman, líder do time de "supers" cujas aventuras passadas ninguém recorda. Suas aventuras envolviam o que há de mais ingênuo no gênero. Para começar, recebeu seus poderes de um astrofísico que se tornou deidade e lhe deu a "palavra mágica" para quando precisasse salvar o dia. Não era Shazam, mas sim Kimota (atomik). Ele e seus amigos - incluídos aí Kid Miracleman e Miraclewoman (!) - viviam em luta constante com o maquiavélico Gargunza, gênio científico do mal. Para variar, ninguém se machucava realmente, todos contavam piadinhas em momentos de tensão e, no "número seguinte", o vilão retornava para encher o saco.

Mas como Micky Moran viveu tudo isso e ninguém se recordava da existência de superseres? Simples, as maravilhas existiam apenas em HQs infantis e ele foi cobaia num longo experimento, onde viveu quase oito anos em sono constante, sendo alimentado com aventuras pueris retiradas de gibis. Só que, um dia, ao se recordar de tudo, despertar na plenitude de seus poderes e buscar sua origem, os super-heróis e os mega vilões estarão no mundo real. Entretanto, as histórias não serão mais tão bobas: estupros (masculino e feminino), pedaços de corpos caindo dos céus, orgias celestiais e totalitarismo estarão presentes. E até mesmo suicídio do alter ego de Miracleman, numa das passagens que considero a mais tocante dos quadrinhos. Num dado momento, Micky Moran quer morrer: perdeu esposa e filha e se vê como inútil. Então, sobe uma montanha, retira as roupas e deixa um bilhete. Pronuncia a palavra Kimota e torna-se Miracleman. Este lê seu epitáfio e, desde então, nunca mais voltará ao corpo de Moran. Na mitologia criada por Alan Moore, a "transformação" se dá pela troca de corpos clonados, quando pronunciada a palavra-chave. Mike perecerá no limbo do infra-espaço, para sempre. Seria algo como Clark Kent se matar e deixar apenas Superman vivo.

"Suicídio" de Mike Moran em Miracleman #14

Num dado momento da saga (texto em prosa), Miracleman nos diz que, em seu aniversário de renascimento, o mundo comemorou queimando gibis, livros e filmes de ficção científica. O faz-de-conta, penso, não era mais necessário. Os deuses estavam entre nós e sonhar com homens voadores não fazia mais sentido. Alan Moore repetiu isso posteriormente em Watchmen - os gibis mais vendidos, ali, eram de pirataria, como Contos do Cargueiro Negro, por exemplo, pois heróis realmente existiam.

Ao seu modo, o cineasta Shyamalan M. Night fez o mesmo com o gênero em sua trilogia Eastrail 177. Meio qual Moore, conseguiu dar uma "desconstruída" no nicho. Tudo começou em 2000, em Corpo Fechado. Mais recentemente, concluiu sua ideia em Fragmentado (2016)  e Vidro (2019). E, assim, prestou grande homenagem aos nossos amados quadrinhos, especialmente ao gênero super-herói, nos fazendo parecer possível a existência, entre nós, de superseres benevolentes e gênios do mal.

Na trilogia apelidada de Eastrail 177 - referência ao acidente de trem mostrado em Corpo Fechado -, três homens encarnam estereótipos de comics. David Dunne é o herói típico, dotado de superforça e que, ao seu modo, combate o crime trajando capa (embora de chuva). Elijah Price mostra-se, mais à frente, o vilão brilhante, incapaz de muito esforço físico e dotado de imensa capacidade cognitiva. Kevin Crumb é o múltiplo, cuja personalidade "A Fera" é praticamente impossível de se abater. E no meio de tudo isto está Ellie Staple, psiquiatra que invoca histórias em quadrinho para apontar sua tese de delírios de grandeza. À frente, a trama se mostra mais complexa do que parecia inicialmente, uma organização global oculta sai das sombras e, ao final, uma modesta loja de HQs encerra, em Vidro, o que se iniciou em Corpo Fechado.

Confesso não gostar de filmes de super-heróis. Ainda não vi, por exemplo, nenhum de Thor, os últimos dois de Vingadores, nenhum Liga da Justiça, dentre tantos. Não consigo gostar daquelas histórias divertidas onde, em momentos de vida ou morte, o Homem de Ferro soltará piadinhas que farão toda a platéia sorrir no cinema, enquanto come pipoca no super-balde customizado, ostentando óculos 3D. Respeito opiniões em contrário, mas acho essas produções puro lixo. Há quase quarenta anos, gente como Alan Moore e Frank Miller, e.g., estavam desconstruindo o gênero para extrair de um universo aparentemente pobre algo soberbo. E hoje, nos cinemas e em diversos títulos impressos, retrocedemos para retirar todo o potencial edificado às custa de tanto esforço artístico e intelectual.

Há quem alegue que os blockbusters DC/Marvel se destinariam às crianças e por isso têm essa pegada mais retardada. Não é tanto o que vejo em salas de cinema. Os marmanjos estão em grande maioria, com suas camisetas ostentando logotipos de heróis. E, na tentativa de nos mostrar um super-homem possível, acho que a trilogia Eastrail 177 consegue tal façanha melhor que todos os milhões investidos em efeitos especiais nas produções arrasa-quarteirão.

Fica, enfim, minha sugestão de cinema para quem ama quadrinhos com seus heróis heroicos e as vilanias dos vilões. E, em tempo, destaco que a palavra "Übermensch" é utilizada expressamente por Moore em Miracleman e Zaratustra também é o nome escolhido pelo malvado Doutor Gargunza no projeto para criação de super humanos.

Super abraços e até a próxima.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Réquiem para um sonho (Requiem for a Dream, 2000)


Apenas recentemente, após dezesseis anos, assisti a Réquiem para um sonho (Requiem for a Dream, 2000). Estava interessado em vê-lo há uns dois anos, mais em razão de Jared Leto, que me chamou atenção desde Capítulo 27, onde deu corpo (obeso) ao debiloide Mark David Chapman, e, claro, por sua excelente atuação em Clube de Compras Dallas. Mas, enfim, confesso que foi perda de tempo. O único mérito da produção é assistir à peladona (e peludona) Jennifer Connelly em cenas relativamente provocantes. Mais nada.

É interessante notar que o filme parece inútil, sem objetivo. A princípio, estamos assistindo apenas a uns drogados mimados se picando, cheirando e trepando. Mas há uma intenção por trás de tudo. Confesso que Hollywood não deixa de me assustar. Durante a trama, a mãe do protagonista vive melancólica em seu apartamento velho, viciada em programas televisivos de auditório. Ela é pré escolhida para ir à TV, participar de um show. Para caber novamente em seu querido vestido vermelho, ingressa numa dieta à base de anfetaminas pela manhã e sedativos à noite. Logo, está viciada; em pouco tempo, louca. Com isso, os iluminados roteiristas afirma: a sociedade americana está corrompida pelas drogas; estas, vão desde heroína até produtos dietéticos, TV (hoje, seria internet, acho) e comidas gordurosas e viciantes. E tudo seria a mesma coisa. Esqueceram apenas uma brecha: a pobre mamãe ficou debilitada a tal ponto após anos de sofrimento nas mãos de seu filho mimado, que não pode ser educado de maneira mais incisiva (pois o Estado proíbe), acuando-a várias vezes em busca de grana para se picar. Não adianta associar. Esse discurso não cola. Ninguém comete latrocínio nem se prostitui para abastecer o vício em McLanche Feliz. E as anfetaminas para controle de apetite foi um lance infeliz da medicina, apenas.

Alguns cinéfilos tentam encontrar na película um grande feito, com significados e significantes profundos. Um filme gnóstico? Uma denúncia de um tempo cruel e viciante, onde programas familiares de televisão equivalem a pico na veia? Podem força a barra. Mas não é nada disso. Trata-se apenas de um filme "marromenos" (com cenas pesadas) para entreter.

Este, claro, é apenas meu humilde ponto de vista.

Republicação de postagem de 05 de abril de 2016

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Forrest Gump de Winston Groom



"Preciso fazer xixi."
Gump, Forrest

Eric Roth levou para casa o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por Forrest Gump, desbancando Frank Darabont pelo trabalho em Um Sonho de Liberdade. Acho esquisito isso, pois penso que deveria ser Melhor Roteiro Original, considerando sobretudo que seu trabalho magistral não tem quase relação alguma com o livro mediano de Winston Groom. Este, certamente teria caído em total esquecimento se não fosse pelo filme. São raros casos assim, mas existem. Às vezes, a adaptação para o cinema fica melhor que a obra primeva. Podem me criticar e achar o contrário, só creio, por exemplo, que livros como Clube da Luta, A História Sem Fim e Entrevista com O Vampiro (dentre outros) só vendem bem porque tiveram roteiro adaptado superior ao original.

Não falarei tanto sobre o brilhante filme de Robert Zemeckis porque, se você nunca o viu, falta algo em sua vida. Corra atrás urgente! Acerca do livro, destaco de plano ser escrito tentando emular a linguagem coloquial, com supressões inclusive de letras. Nada de novo sob o sol, vez que, aqui mesmo no Brasil, autores modernos tentavam artifício similar há décadas. A trama é narrada em primeira pessoa e não tem nada a ver com o cara num banquinho de praça contando sua vida extraordinária. São memórias de uma vida de alguém classificado como idiota savant. Basicamente, um burro prodígio. E assim é Forrest, incapaz de se sair bem numa prova escrita de Educação Física porém brilhante em cálculo avançado. Aliás, esse seu dom para matemática foi posto de lado no filme. No livro, bom número de páginas é dedicado à sua fase estudantil, onde praticamente vivia isolado e sem amigos. Até mesmo Jenny Curran não foi grande presença em sua infância. Sequer sua mãe o foi em sua vida, sempre se dirigindo a ele qual um reles idiota. E tampouco Gump foi um filho tão bom como o construído no cinema.

Deveras, o Gump de Winston Groom se envolveu em feitos extraordinários: a) jogou bem futebol americano e, aliás, é dotado de grande porte físico; b) teve papel importante na abertura comercial chinesa jogando pigue-pongue; c) foi ao Vietnã e retornou com honras; d) viajou pelo espaço acompanhado de uma cientista e um orangotango que o acompanharia pelo resto de sua vida; e) perdeu-se na África por anos, quando sua espaçonave caiu, convivendo com canibais; f) ganhou muito dinheiro com camarão; g) se mostrou grande músico, integrando até mesmo uma banda; h) foi exímio enxadrista; i) abandonou tudo para acabar sua vida tocando em ruas, a troco de... trocados, sendo sempre acompanhado pelo Tenente Dan e o gigantesco símio.

Forrest Gump é um livro para mero entretenimento, cheio de trechos que não convencem, às vezes mal construído e com único propósito de tentar ser cômico. Não espere sequer uma página dramática. Até mesmo seu reencontro com Jenny e seu filho, ao final, é rápido e por mero acaso, vez que ela está bem casada e o marido mostrou-se bom padrasto para o garoto. Não há muita relação com o Gump de Roth/Zemeckis, a não ser poucos aspectos. Não compreendo sequer por que a capa do livro traz o icônico banco de praça do cinema, já que a narração se dá à toa, a esmo, sobre toda uma vida. O próprio narrador-protagonista nos diz, ao final, que de repente envelheceu, chegando aos 60 anos de idade. E é só. Ele não narra sua vida a ninguém, mas a si mesmo.

O filme de 1994 ficará para sempre na História. Às vezes eu preferiria nem ter lido o romance, pois parece sujar as vivas imagens que possuo da trama desde que, adolescente, loquei o VHS assim que lançado e, anos à frente, o gravei quando exibido pela primeira vez na Tela-Quente da Globo. Mas foi uma leitura rápida e não tomou bastante tempo. E serviu para reforçar minha visão sobre o Cinema enquanto nobre forma de arte, jamais abaixo da Literatura, como teimam alguns.

A edição comemorativa de 30 anos de Aleph, por sua vez, é linda. São 392 páginas de papel pólen bold 90 g/m² em capa dura com relevo e sobrecapa dupla face, com generosas fontes coloridas que respeitam nossa visão cansada. O projeto gráfico é impecável e tenta nos remeter à alma americana, com suas cores, listras, estrelas e um trabalho tipográfico entre capítulos similar às chamadas de época (parabéns ao Pedro Henrique Barradas). As ilustrações de Rafael Coutinho são razoáveis vez que o próprio artista é apenas razoável. A tradutora Aline Storto Pereira deve ter suado bastante para encontrar, em nosso idioma, o tom coloquial e simplório buscado pelo autor.

Em resumo: se algum dia estiver com bastante tempo livre e certa curiosidade, leia este romance. O filme, veja e reveja até as imagens colarem em seus miolos. Ah, e a caixa de bombons também está lá, no primeiro parágrafo, apenas para situar o narrador como alguém de ideias desconexas: "Deixa eu te dizer uma coisa: ser idiota não é nenhuma caixa de chocolate.".

Abraços achocolatados e até a próxima.