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quarta-feira, 10 de março de 2021

O Homem Invisível de H. G. Wells e Alan Moore


Cena de The Invisible Man (1933)

"O Senhor Wicksteed era um homem de quarenta e cinco ou quarenta e seis anos, intendente de Lord Burdock, de aparência e hábitos inofensivos, de modo que seria a última pessoa no mundo a provocar um antagonista tão terrível. Contra ele, o Homem Invisível usou uma barra de ferro que arrancara de um pedaço partido de cerca. Abordou o pacífico homem, que calmamente voltava para almoçar em sua casa ao meio-dia. Atacou-o, destruindo suas frágeis defesas, quebrando-lhe o braço, derrubando-o no chão e esmagando-lhe a cabeça até que se tornasse geleia."

Acho que o primeiro filme onde vi boa concepção d'O Homem Invisível foi no excelente O Homem Sem Sombra (2000, locado em VHS). Na verdade, à época, foi excelente para mim. Hoje, acho-o meio fraquinho. Mas ali estava toda a essência da obra de H. G. Wells, adaptada para o mundo contemporâneo. O cientista interpretado por Kevin Bacon torna-se extremamente cruel e insano, como efeito colateral à sua invisibilidade irreversível. Depois, conheci o "verdadeiro" Griffin em A Liga Extraordinária de Alan Moore e Kevin O'Neill. Entre tantas mentes malignas e até mesmo alienígenas, Griffin (mesmo integrando grupo de heróis vitorianos) desponta como o pior dentre os piores. Sua primeira aparição é habitando, escondido, uma escola para moçoilas, onde se passa por assombração para estuprar geral. No segundo volume d'A Liga, barbariza Mina Murray e, por isso, tem seu final tragicamente selado pelo Dr. Jekyll/Hide, com todos os ossos do corpo trucidados e, ao final, enrabado pelo monstro, deixado para morrer em agonia (e arrombado).

Não havia lido a obra primeva de H. G. Wells, até recentemente. E, colegas, Alan Moore foi certeiro naquela representação. O trecho transcrito acima evidencia como o físico é sádico. Contudo, antes mesmo de ingerir a fórmula, o sujeito era mau. Totalmente indiferente às pessoas, por exemplo, levou o pai ao suicídio ao roubá-lo. E fez questão de não tentar limpar sua honra na cidade onde morava e faleceu afamado por ladrão. Em dado momento, ainda zomba do suicídio, atribuindo-o à fraqueza do genitor.

N'A Liga, me causou estranheza que, após o último suspiro de Griffin, seu sangue aparece nas roupas de Hide e em todo o canto. Foi uma licença à ideia original de Wells. O sangue coagularia normalmente mesmo com seu dono ainda vivo. No romance, o louco invisível explica a seu amigo Kemp acerca disso: "É um grande incômodo ver meu sangue espalhado por aí, não é? Ocorre que ele se torna visível quando coagula. Modifiquei apenas o tecido vivo, portando a invisibilidade só durará enquanto eu viver.". O autor também tenta explicar o procedimento de invisibilidade de todos os tecidos com algo acerca de ótica e refração da luz. Achei interessante, aliás. Ao menos para a época quando foi publicado (1987).

Similar aos quadrinhos de Moore e O'Neill, o final do Homem Invisível também é trágico no romance. Só não rola, certamente, o enrabamento forçado. Aliás, é bom notar que Moore possui uma fixação esquisita por violação...

Outro aspecto da obra que poderia ser melhor aproveitado nos quadrinhos é o problema em estar invisível enquanto se digere alimentos, recebe gotículas de água, neve e sujeira. Isso acaba se tornando um inferno na vida de Griffin, além de passar bastante frio e machucar os pés nas longas caminhadas. No excelente filme Memórias de Um Homem Invisível (de 1992, visto por mim diversas vezes na Sessão da Tarde, mas que não considero meu primeiro contato o Homem Invisível próximo da concepção original, por se tratar de comédia e Chevy Chase ser vítima e não vilão), esses incômodos são explicitados. Há cena neste filme, aliás, que lembra o romance, além dos problemas com comida: o ato de fumar: "Depois de comer, e fez uma farta refeição, o Homem Invisível pediu um charuto a Dr. Kemp. Mordeu a ponta rudemente, antes mesmo que Kemp encontrasse uma faca para cortá-la, e queixou-se quando a folha do revestimento afrouxou. Era estranho vê-lo fumar. Era possível ver a boca, a garganta, a faringe e as narinas moldadas em uma fumaça espessa que rodopiava dentro dele".

No cinema, ao menos Chevy Chase tornou-se invisível junto com sua roupa e assim evitamos vê-lo peladão. Quando puderem, confiram o filme. Representa bem o auge de um tipo de comédia que se perdeu no tempo e ainda contamos com a beleza jovem de Daryl Hannah.

Em resumo: gostei de ler o romance. Não supunha ser tão bom. Via-o apenas como ficção científica e me deparei com puro terror. Além disso, a edição da Pandorga ficou excelente. Evito comprar livros impressos, mas naquelas promoções onde mal se paga o frete, adquiri o belíssimo box. Os livrinhos tiveram belíssimo trabalho gráfico, com capas super coloridas emulando livretos pulp e quadrinhos juvenis. O artista brasileiro responsável chama-se Butcher Billy. Na caixa, ainda temos A Máquina do Tempo e A Guerra dos Mundos.

Acerca da arte, infelizmente fica claro o artista desconhecer os livros. Vê-se claramente que sua concepção artística se deu sobre garimpo digital de filmes antigos. Sua concepção de Morlocks (humanóides d'A Máquina do Tempo), por exemplo, se baseia no filme de 1960, totalmente discrepante da obra escrita. Prefiro pensar que este foi o objetivo, num trabalho de capista cujo objetivo seria, justamente, remeter a pôsteres cinematográficos. Vai-se saber...

Não falarei sobre os dois outros romances (novelas) nesta postagem. Talvez noutra. Mas destaco me chamar atenção a apresentação de A Máquina do Tempo, onde os editores ressaltam que a civilização mostrada ali, no futuro (ano 802701, onde os Eloi(s) habitam na superfície e os Morlocks nos subterrâneos, "escravizados" para manter a vida boa dos "de cima"), constituiria "feroz crítica à sociedade industrial" da época do autor, pois este foi inspirado em Marx e era "conhecido defensor de ideais socialistas". Até aí, ok. Mas e o restante? Não compreendo a tara dessas editoras em advogarem comunismo a todo custo. Quando a novela foi escrita (publicação em 1895), sequer havia regime de mercado como hoje. Além disso, Wells morreu em 1946 e não testemunhou a abertura dos arquivos de Moscou, os números dos expurgos de Mao e Pol Pot e sequer chegou a saber do Holomodor (encoberta por anos a fio). Acho perigoso quando a esquerda festiva utiliza figuras do passado para enaltecer ideologias macabras. Aliás, penso que, atualmente, A Máquina do Tempo representaria bem o comunismo: Os Morlocks (cidadãos comuns) ralando por migalhas para manter os Eloi (políticos, burocratas e amigos do Partido).

Ademais, não há sistema de exploração no romance. Veja bem: de acordo com o Viajante no Tempo, a sociedade evoluiu em paz durante eras: "Os ricos enfim seguros com suas riquezas e confortos, os trabalhadores seguros com suas vidas e trabalhos.". Só que, num dado momento, o sistema degringolou: a aristocracia se deu cada vez mais a atividades meramente frívolas e emburreceram e os operários, proprietários de todo o maquinário no subsolo, passaram a supri-los em troca de alimentos. Ocorre que a carne passou a rarear e apenas os Eloi eram frugívoros. Logo o hábito ancestral do canibalismo retornou. E os Eloi, mais fracos, passaram a ser caçados durante a noite. O Viajante chega a enxergá-los como rebanho que pasta feliz durante as manhãs para, sem advertência, servir de alimento à raça mais forte: justamente os Morlocks.

Ao final da obra, o editor destaca os ideais feministas de Wells e, novamente, repete sua ideologia socialista (o cara seria quase o Fiuk!). Faltou um pouco de pesquisa, como sempre. H. G. Wells gozou de bastante prestígio ainda vivo e, logo, se inclinou aos ideais fabianistas, integrando a elite intelectual por trás da Sociedade Fabiana: pobres e classe média não deveriam existir se não para ser direcionados pela nata intelectual e econômica. Destaco que fabianistas célebres defenderam publicamente genocídios de "raças inferiores" e "pessoas inadequadas". Bernard Shaw, v.g.,  se esforçou para criação de gases letais que facilitassem a execução de homossexuais, negros, ciganos e povos subdesenvolvidos. Pois é... Wells era adepto do socialismo (fabiano).

Conhecido defensor de um mundo sem fronteiras, empreendeu bastante energia pelo fim de soberanias nacionais em prol de uma Nova Ordem Mundial, algo deixado claro em seu A Conspiração Aberta e em artigos e palestras. Felizmente, possuímos uma dessas palestras gravada, onde os ideais fabianistas do autor, que nada tinham de "amor ao próximo" - mas, sim, a implantação de um governo global - ficam claros para quem fez o dever de casa além dos livros made in MEC. E este Governo não existe sem totalitarismo, supressão cultural, expurgos e demais males de todo pensamento revolucionário.

Destaco ainda uma pérola encontrada logo no início d'A Guerra dos Mundos. Ao narrar a extinção de bisões e dodôs causadas por nós, pessoinhas más, o autor cita a dizimação dos aborígenes tasmanianos, da seguinte forma: "Os tasmanianos, apesar de sua aparência humana, foram varridos da face da Terra em uma guerra de extermínio empreendida por imigrantes europeus (...)". Destaco: "apesar de sua aparência humana". Enfim, por mais que algumas pessoas queiram dar lições éticas (lacrar, como falamos atualmente), em alguns momentos sempre deslizarão em suas convicções mais sombrias. Ainda pensei que poderia ser equívoco na tradução. Então fui em busca do texto original e achei: "in spite of their human likeness". C'est fini!

É isso. Desconhecia totalmente o escritor britânico e me surpreendi com sua prosa fluida e agradável, bem como com as bases científicas bem fundamentadas. A presença de seus escritos vê-se em toda a cultura pop (cinema, quadrinhos, jogos etc.). Achei que seu nome fosse sempre recordado pela natureza de precursor. No entanto, estava errado: sua prosa é notável até para o dias atuais. Fica a sugestão de leitura, ainda mais para quem gostou da concepção de Griffin n'A Liga Extraordinária.

Abraços invisíveis e até a próxima.

sábado, 10 de outubro de 2020

O mal em Pinóquio

Depois que me comprou, o senhor me trouxe para este lugar para me matar, mas então, cedendo a um sentimento humanitário, preferiu amarrar-me a uma pedra no pescoço e me atirar ao fundo do mar.

Pinóquio, Capítulo XXXIV.

No divertido Esquerda Caviar, Rodrigo Constantino nos diz que o primeiro representante de peso dessa estirpe radical chic foi Jean-Jacques Rousseau. Como grande amante da humanidade e sem capacidade de amar sequer o próximo (aliás, nem os próprios filhos), teceu a ideia de contrato social que lhe deu o nobre título de pai do totalitarismo moderno. Dele é o pensamento - dissociado da realidade - "o homem nasce bom e a sociedade o corrompe", contrário à doutrina judaico-cristã do pecado original. Para os que desconhecem: católicos batizam crianças, por exemplo, porque estas nasceriam contaminadas pelo pecado primevo. Crianças podem ser más, capazes de atos atrozes, mas perdoadas por sua ingenuidade. Simples assim. Esse batismo, mais à frente, seria renovado no sacramento da crisma.

Acredito piamente que o homem nasce dominado por sua natureza selvagem (nada generosa). E apenas com bastante força de vontade e aprimoramento espiritual ele, talvez, consiga melhorar enquanto ser vivo consciente de sua existência. Esse é mote por trás do maravilhoso O Senhor das Moscas, do Nobel William Golding, o qual viveu e faleceu descrente no ser humano. Na trama, crianças cedem a ímpetos selvagens em pleno isolamento civilizatório, quando confrontadas com o estado natural. Ao depositarmos fé na capacidade humana de - por normas jurídicas, exercendo poder - mudar a sociedade, lhe damos a corda onde seremos pendurados. Como disse Olavo de Carvalho certa vez, "quando ouço alguém falar em mudar o mundo, me escondo logo sob a cama".

Pinóquio - A História de Um Boneco, obra escrita de Carlo Collodi essencial à literatura mundial, parte do mesmo pressuposto bíblico: os seres vivos não são naturalmente bons. E assim é Pinóquio: mal, vagabundo, preguiçoso, cruel e ardiloso. Um pequeno canalha-mor em madeira seca. Sua primeira conduta enquanto vivente é explorar o amor do pai por si e assassinar o Grilo Falante. Mas à frente, ludibria a Fada de Cabelos Turquesa e, novamente, explora o amor quase materno. Entre trancos e barrancos, após sofrer roubos, tentativas de assassinato, cárcere privado, escravidão e ser até mesmo transformado em jumento e jogado ao mar para ter o couro esfolado, reconhece precisar melhorar e, assim, em redenção, procura se redimir de todas suas falhas, tornando-se finalmente um menino de carne e osso como prêmio.

A citação escolhida por mim a esta postagem, acima, evidencia o mundo habitando pelo boneco sacana. Um garoto imoral numa existência igualmente corrompida. O mundo nunca foi bom lugar onde habitar, mas é o único que possuímos e vale a pena tentar viver em paz sobre ele, flutuando no vasto espaço.

Em postagem anterior, falei sobre a insanidade nos preços dessas obras esgotadas da finada Cosac Naify. Ali, também mencionei o apuro gráfico do volume. Quem quiser adquirir um livro caprichado e a preço justo, recomendo a edição da SESI-SP Editora, elaborada sobre acervo doado pela Cosac Naify, que respeitou a intenção original do autor.

Também deixo como sugestão o excelente quadrinho Pinóquio de Winshluss, recomendado por mim há alguns anos.

Abraços madeirísticos (!) e até a próxima.

Obras mencionadas nesta postagem.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Tô rico e não sabia [ Assombros cotidianos ]

Meu rico dinheirinho.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
- Livros, Caetano Veloso

No antigo blogue, eu expressava a ideia de que, com a digitalização da informação e seu acesso de forma cada vez mais fácil (novos dispositivos mais baratos e eficientes, banda larga etc.), os livros precisariam de maiores cuidados quanto à forma. O livro, enquanto objeto tátil, necessitaria se tornar mais atraente/atrativo. Se é para comprar brochura vagabunda pelos olhos da cara, melhor ler de graça em tablet, ereader ou até mesmo celular. E, no Brasil, a Cosac Naify foi responsável por esse salto de qualidade em nossas publicações. A editora capitaneada por Charles Cosac foi, de certa forma, entidade filantrópica em terras tupiniquins. Seus donos nunca visaram ao lucro. Queriam apenas editar bons livros com toda a frescura do mundo. Durante dezenove anos, venderam livros de excelente qualidade gráfica (alguns, com arroubos quase fetichistas) abaixo do preço de custo.

Sempre me interessei pelo mercado livreiro e pelo livro não apenas enquanto veículo de conhecimento, mas, igualmente, tátil. De certa forma, o livro sempre pode ser produto de arte destinado a invólucro de... arte. Hoje, diante de questões relevantes sobre espaço físico, economia de grana e as safadezas das editores conosco, leitores, eu apoio bastante o meio eletrônico, especialmente o gratuito. Dá para ler de graça e com qualidade em diversos "gadgets" (para usar a palavrinha mais apropriada a este novo mundo). Então, leiamos. E, claro, reservemos o meio físico a algumas obras especiais e, claro, que nos deem capricho gráfico. Repito: se a obra for figurinha fácil e estiver impressa em brochura descartável fubenta, a preço elevado, melhor "puxar da internet", como diz o matuto.

Esses dias, eu comentaria aqui sobre o romance Pinóquio de Carlo Collodi. A edição possui o apuro gráfico da finada Cosac Naify: capa dura com gravações em dourado sobre hot stamping, ilustrações de Alex Cerveny, miolo em papel GardaPat Kiara 115 g/m² (papel "dubom", com elevada gramatura), impresso na lusitana Nortprint. Três mil exemplares tiveram luva em material rígido.

Sobre as ilustração, destaco a técnica cliché verre empregada pelo artista. É algo trabalhoso, onde o desenho é feito por remoção de fuligem aplicada sobre placa de vidro. Chamuscam a placa com vela e, após, se vai desenhando sobre ela a seco. Como resultado obtemos o "negativo" do desenho, para impressão posterior mediante contato fotográfico. Amiúdes: coisa fina e cheia de frescurinhas. Não me recordo por quanto comprei, mas foi alguma ninharia de saldão. E, ao escrever sobre o romance, efetuei breve pesquisa sobre a disponibilidade do texto integral (nada dessas babaquices adaptadas). Qual minha surpresa quando vi livreiros da vitrine da Amazon vendendo a mesma edição por até R$ 999,90.

Como diz o comunista-coxinha Huck: loucura, loucura, loucura!

Daí, resolvi verificar outras obras da Cosac Naify de minha estante. Outro assombro, conforme podem constatar na imagem acima. Outono da Idade Média por até R$ 2.390,00 e os contos de Tostói por oitocentas pilas. Sei que existem os colecionadores (bibliófilos e bibliômanos). Mas, convenhamos, isso tudo parece mais devaneio do mercado que já se mostra, aliás, em frangalhos. Cada vez mais, penso que sebos e livrarias pedem para sucumbir assim como a indústria fonográfica, que nos roubava sem vergonha alguma na cara, com CDs que custavam um salário mínimo, logo após a conversão da moeda de URV para Real.

Duvido bastante que esses livros sejam vendidos por tais valores. Não consigo crer nisso. Na Estante Virtual, topei com obras de meu interesse ofertadas por valores absurdos. Nos dois casos, entrei em contato com os vendedores e fiz proposta, sem êxito. Passados anos, ainda vejo as mesmas obras à venda, mas agora com preços reduzidos. Só que, agora, não tenho mais interesse em tê-las, mesmo com valores dentro da realidade. Destaco isso porque muitos podem alegar que há interessados. E, francamente, ainda mais considerando o período difícil pelo qual passamos, duvido mesmo.

Insisto apenas nisso: o mercado livreiro, como conhecemos, está com os dias contados. Isso vale inclusive para obras eletrônicas de grandes editoras, que insistem em cobrar caro por elas. Em diversos momentos, topei com livros digitais pelo mesmo valor que os impressos. Por maior que seja a ginástica mental empreendida, isso não se justifica na maioria das hipóteses.

Acredito que, seguindo essa regra dos valores acima, devo possuir uma Toyota SW4 2020 em minhas estantes e, até hoje, não sabia.

Abraços inflacionados e até a próxima.


sábado, 3 de outubro de 2020

O Homem do Beco Medonho [ novela de Fabiano Caldeira ]

 

Capa do exemplar no aplicativo gratuito Kindle.

"Que tipo de homem bate punheta e não goza? Muito estranho."
- Jefferson acerca de "Medonho"

Sempre gostei do trabalho de meu amigo Fabiano Caldeira enquanto cartunista. Sua tira As Gêmeas, para mim, é sua melhor criação. Há outros trabalhos. Mas As Gêmeas são as melhores. Também sou leitor de seu blogue Socializando há quase dez anos. Sinto saudades da versão anterior dele (a 1.0), extinto. Mas tudo muda, inclusive a maneira de blogar. E fiquei contente quando vi seu crescimento como escritor, com obras bem recebidas na plataforma self-publish da Amazon. Contudo, podia apenas ficar satisfeito por isso, mas não o lia. É que seu trabalho volta-se, sobretudo, ao público gay. Essencialmente, sua prosa é erótica (hot, ou, como prefiro, pornográfica) para homens que gostam de transar com outros homens. Assim, seu nicho é composto quase que totalmente por gays e mulheres heterossexuais (contumazes consumidoras de material onde impera o homossexualismo masculino, algo que Freud explica). Até que ele publicou duas obras voltadas ao leitor geral: O Homem do Beco Medonho e Rita & Orestes. Li o primeiro e adorei, valendo a pena recomendar aqui.

A história nos é apresentada por três narradores: a) o escritor, b) Jefferson e c) alguém conhecido apenas por Medonho. Essa forma narrativa é interessante porque nos permite analisar a parcialidade dos envolvidos. Não é como Dom Casmurro, onde acreditamos piamente na canalhice de Capitu quando tudo nos é repassado sob a ótica de Bentinho. A primeira vez que mantive contato com estrutura narrativa assim foi, quando guri (onze ou doze anos de idade, acho), li o maravilhoso Versões Sobre Um Fuzilamento de Roberto Drummond (mais conhecido por Hilda Furacão).

O mote é simples: numa noite vazia, Jefferson tem o pneu do carro furado e é auxiliado pelo estranho morador de um beco medonho. O residente sinistro (conhecido apenas por "Medonho"), o arrasta naquela mesma noite não apenas para o interior de seu muquifo, mas, igualmente, para dentro uma mal contada história envolvendo assassinato, mafiosos brazucas, amigos sacanas e uma Ferrari icônica.

De antemão, ressalto haver elementos homossexuais no romance O Homem do Beco Medonho. Mas isso não atrapalha a leitura para quem não curte piroca. Vi mais homossexualismo explícito em A Casa dos Budas Ditosos de João Ubaldo Ribeiro (romance) e em Lost Girls (graphic novel escrita por Alan Moore e ilustrada por sua esposa Melinda) do que nas poucas nuances salpicadas na prosa de Fabiano. Sua linguagem, coloquial, reproduz algo similar ao que encontro nas tramas de Rubens Fonseca e Ítalo Moriconi. Na verdade, penso que Fabiano Caldeira poderia até se soltar mais, sem amarras de linguagem. Havendo contexto, não há porque ser polido em prosa assim. Felizmente, sua contrição não foi absoluta e, em diversos momentos, me senti lendo algum texto de Rubens Fonseca, como no trecho abaixo:

Ele peidou. Um odor horrível. Cheguei a pensar que tivesse cagado na calça. Sua pele sebosa ficou cada vez mais úmida. Suava frio. Que merda de veado aquele que sequer oferecia resistência? Um covarde.

Sua escrita é fluida e nos oferece leitura dinâmica. O texto é bem amarrado e enxuto. Não me vi, em momento algum, lendo excesso destinado a encher linguiça. A linguagem e as ações dos personagens situam a trama em nossa época. Contudo, para reforçar essa palatabilidade  com o tempo presente, penso que o autor poderia ser mais explícito ao citar produtos e serviço por marcas comumente usuais. Em dados momentos, ele se refere a “aplicativos” para mensagens e transporte. Seria interessante mencionar diretamente "WhatsApp" e "Uber", ou outros. A literatura contemporânea não se perde em descrições de ambientes como a clássica. Mas não deixa escapar, por exemplo, a marca da cerveja que o protagonista entorna, o modelo e quantos cavalos seu automóvel possui e os ingredientes presentes em seu jantar. Assim, por exemplo, são escritores que vão de Stephen King a Jô Soares. O primeiro não perde a oportunidade de citar a marca do martelo que será utilizado num crime (v. IT, A Coisa); o segundo precisa explicar, mesmo que brevemente, como é feita a Salade Aïda servida de entrada no Expresso do Oriente (v. O Homem Que Matou Getúlio Vargas). Gostaria, então, que o autor tivesse me dado mais a respeito da Ferrari que, de certa forma, é quase personagem da trama, não apenas se referindo a mesma como “lendária”.

A sintonia com a realidade é o melhor da história. Trata-se de um conto com pé na vida real, nos deixando com a sensação de plausibilidade. Há ressonância emocional em tudo, a sensação de que tudo aquilo seria facilmente possível de ocorrer numa grande metrópole. Cito, por exemplo, a passagem abaixo, me fazendo recordar quando um conhecido contabilista local (bicha enrustida) foi assassinado esganado por um de seus jovens casos secretos, há pouco tempo:

O cara era um daqueles casadões enrustidos. O chefe de família que criou as filhas na maior mordomia, regadas a lições de moral e bons costumes, sendo que ele mesmo gosta de sair por aí e dar o cu ao primeiro que vê pela frente. (…) Apenas agradeci e disse um “se cuida” com todo meu coração, pois homens como ele, se não mudarem de atitude, acabam vitimados pelo próprio desejo.

Ou quando comenta o sensacionalismo midiático sobre mortes quando a vítima é homossexual. E isso também me recordou quando morei na cidade de Campina Grande e um conhecido travesti nosso foi esfaqueado dezenas de vezes, vindo a óbito. A imprensa local, incontinenti, hasteou a bandeira da homofobia, crime de ódio, com os homens brancos (havia gravações de câmeras de segurança das lojas próximas) - possivelmente heterossexuais burgueses e futuros eleitores de Bolsonaro - agredindo o pobre veado. Houve passeata nas ruas, pedindo justiça contra a intolerância. Mas, em menos de um mês, descobriram os culpados: traficantes. O travesti era avião e devia grana ao patrão. Simples assim. Curiosamente, após isso, não houve mais passeatas nem notícia. Na trama, Ron, amigo do protagonista/narrador Jefferson, assim expõe a situação:

Quando encontram bichas mortas, assim, se não houver insinuação de que foi crime homofóbico, ninguém liga. Ninguém quer saber. Tem que falar, sim, que foi homofobia. Para o povo se sensibilizar.

Em resumo: é um bom livro. Você vai se divertir bastante lendo esta prosa curta (novela, conto longo?). Não há pretensão alguma a não ser entreter com uma trama simples e empolgante. Me mantive curioso quando, no meio da narrativa, outros contornos surgiram e a conclusão deixou ganchos para sequência. 

Quando guri, era comum ver romances de banca de revistas: brochuras em medidas diminutas, com preços relativamente acessíveis, títulos chamativos, capas bregas e que vendiam a rodo. Eu, guri, não era leitor daquelas publicações. Mas as via regularmente em residências variadas. As pessoas podiam não ser leitoras contumazes de clássicos da Literatura, mas se entretinham com ficções descompromissadas. Muitas vezes, este é o objetivo de um escritor: confeccionar história para mero entretenimento. E, olha… não é fácil escrever algo que mantenha o interesse do leitor por quase cem páginas. Fabiano Caldeira conseguiu atingir esse objetivo.

Se você gosta de narrativas despretensiosas e contemporâneas, a obra é ótima sugestão. E o melhor: esporadicamente, poderá acessá-la gratuitamente nas promoções da Amazon. Nesta próxima semana, dia 05, estará disponível, novamente, de graça. A leitura no aplicativo Kindle (celular ou tablet) é agradável. Se você possuir dispositivo Kindle, melhor ainda. Optando pela compra, custa apenas R$ 2,99, mais do que justo por 89 páginas de boa leitura.

Abraços medonhos e até a próxima.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Coronavírus com Stephen King


O politicamente correto me proíbe de criticar a China - vaca sagrada do comunismo - pelo vírus. O vírus chinês não veio da China e a autocracia absoluta do Partido Comunista que abafou casos e dados essenciais não abafou casos e dados essenciais. Assim, não falarei da China nem do vírus chinês.

A instituição pública onde labuto mandou quase todo mundo para casa (teletrabalho), devido ao medo de contágio pelo coronavírus (Sars-Cov-2, causador da doença Covid-19). Para mim, não mudou muita coisa, pois, embora exerça atividade de natureza externa, encontrei meios de, com uso de diversas ferramentas eletrônicas (e-mail, WhatsApp, Google Earth, Malote Digital etc.), resolver problemas sem sair de casa. Faço isso há anos. 

A escola de minha filha também fechou e as academias da cidade receberam mesma ordem. Em breve, fecharão comércios variados.

Por medo, estou evitando comer fora. Aliás, estou evitando sair, realmente. Se é para haver confinamento, que seja. E o que vier, que venha. Há anos e anos sei que colapsos sociais são fáceis de ocorrer e, aos trancos e barrancos, me preparei um pouco para eventualidades assim. A despensa está cheia até o teto. Remédios foram comprados. Possuo estoque de munição para arma de fogo e para de pressão (a gás). Estou com 3,5 mil litros de água guardados, tenho acesso para obter mais de graça aqui perto de casa e produzo energia elétrica devido a painéis fotovoltaicos. Ainda quanto à energia, guardei carvão e madeira boa para queima (possuo fogão à lenha) e três botijões de gás.

O relatado acima pode ser o diferencial à sobrevivência de minha família ou ser totalmente irrelevante em caso de hecatombe humana. Mas, como dizia minha mãe (e creio que a de vocês também): "Melhor prevenir do que...". Ainda preciso de gasolina e, logo amanhã cedo, comprarei 120 litros aqui perto. Pouco, mas ajuda bastante. Certamente, os maiores problemas surgirão pós-confinamento, após o colapso econômico e gente matando nas ruas por um saco de feijão. Portanto, todo excesso é pouco.

Enquanto estou confinado, ocupo meu tempo com leituras, cuidados com casa e videogame. Preciso me exercitar e talvez faça isso na rua, em algum lugar ermo, mais ou menos como recomendado pelo Scant. Quanto a livros, acho que esta é a oportunidade ideal para se dedicar a grandes volumes. E, considerando o momento, andei pensando... Qual melhor leitura do que A Dança da Morte do Rei do Maine? Na trama, o mundo é devastado pelo vírus Capitão Viajante, uma espécie de supergripe que se alastra sem dó. Acerca desse romance maravilhoso (um dos melhores a que tive acesso), recomendo minha resenha. A edição mais atual está disponível "de grátis" no LeLivros. Aproveite! Quando li, o fiz no meio físico, com letras pequenas, pouca margem e espaçamento diminuto. Hoje em dia, não faria isso. Não possuo mais visão para algo assim.

Enfim: fica a sugestão de leitura para quem estiver de quarentena. Se estiver na dúvida, dê uma lida na resenha acima indicada. E aproveite mesmo a ocasião para se deleitar com esta obra prima. Pode ser, inclusive, o último livro que você lerá.

Abraços virais e até a próxima (ou não!).

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Um mundo sem erudição em Jogador N.° 1

Pôster Ready Player One by Harlan Elam


- E o que é real, o que é?
Animatrix, Uma história de detetive


Ernest Cline encontrou o mote perfeito para escrever um romance declarando seu amor aos anos '80, especialmente em relação aos videogames. Em seu livro Jogador N.° 1, o quase trilionário James Halliday, devastado pelo câncer, próximo do fim e sem herdeiros, elabora o concurso a se iniciar em seu post mortem. Usuários do OASIS, seu super videogame de profunda imersão em realidade virtual, deverão encontrar o misterioso easter egg plantando, pelo magnata, no sistema, após três fases de jogo. Em todas as fases, o conhecimento em cultura pop oitentista é imprescindível: música, séries, filmes, games e tudo quanto é porcaria. Surgem, então, os caça-ovos e oologistas culturais, empreitada onde diletante (noob?) não entra.

OASIS não é apenas acrônimo para Ontologically Anthropocentric Sensory Immersive Simulation. A realidade criada após imersão representa, deveras, um oásis em meio a imundície do anos de 2044, época da história: fome, doenças, crise energética, falta de habitação e violência extrema. Você pode sobreviver miseravelmente num cubículo se puder existir a maior parte do tempo no OASIS, onde trabalhará, estudará e terá a maior parte de sua interação social. Prático e agradável, em oposição à realidade.

O título original do livro é bem mais interessante do que o nacional. Ready Player One possui relação com a obra ao destacar aquele momento onde, nos arcades (fliperama com monitor), verificávamos esta mensagem antes do início do jogo. Além disso, é a mensagem escolhida por James Halliday para o momento pós login em seu magnífico sistema.

Ernest Cline é co-roteirista da adaptação ao cinema, realizada por Steven Spielberg. Este, aliás, nome constantemente citado na obra escrita, diante de sua relevância à telona nos anos '80 e seguintes. Não preciso, aqui, me perder citando seus filmes icônicos. O bacana nesta adaptação é não tentarem ser fiel à ideia primeva. A produção cinematográfica é simplória. Os três níveis percorridos pelo protagonista da trama - o jogador Wade Watt, avatar denominado Parzival, quando imerso  - são bem extensos, complexos e apegados a minúcias culturais para sua resolução. Não havia como levar tudo às telas.

Transitei bem tanto pelo filme quanto pelo romance, pois o refugo cultural americano da década perdida tem papel relevante em minha formação. Quanto a jogos eletrônicos, conquanto eu não seja gamer, convivi bastante com videogames da 2ª até a 4ª geração, como mencionei em postagem anterior. Além disso, por ser curioso em tecnologia, conhecia muito bem a pré-geração de games e dados sobre a produção de consoles e cartuchos durante anos a fio. Mesmo assim, em ambas mídias, fiquei meio perplexo como o futuro de Cline é pobre não apenas materialmente, num mundo colapsado economicamente. Ele também é pobre culturalmente. Não há resquício de erudição na Terra. O único conhecimento valorizado é acerca de toneladas de lixo popular.

A porcaria abunda na produção cultural popular. Isso é fato. Claro que, ao chafurdar no lodaçal, você encontra realizações que merecem, realmente, recordação constante. Assim, por exemplo, me deliciei com tantas menções aos filmes de John Hughes, os quais me faziam querer ser um jovem ianque na Shermer High School. No filme, há destaque especial a'O Iluminado de Stanley Kubrick, adaptação odiada por Stephen King. Achei este momento legal, embora não exista no livro. Neste, os filmes mais destacados são três que igualmente amo: Jogos de Guerra com Matthew Broderick, Blade Runner (obra prima cyberpunk de Ridley Scott) e Monty Python - Em Busca do Cálice Sagrado. O primeiro foi relevante em minha infância e o terceiro, o qual conheço desde adolescente, possui maior relevância emocional em minha vida após me ser reapresentado por alguém especial, quando na vida adulta. Os Cavaleiros que dizem "Ni", na trupe de Python, ganham contornos mágicos em nossas vidas quando fazem sorrir, a nosso lado, a pessoa amada.

O livro é divido em três partes. Ou melhor: três níveis de jogo. A cada nível, os caça-ovos precisam encontrar chaves (cobre, jade e cristal) para abrir três portões. Nessa empreitada, precisam disputar alguma partida de videogame vintage, associar conhecimentos culturais diversos e representar alguma personagem cinematográfica, do início ao final, ganhando ou perdendo pontos por fala, ação e até mesmo entonação de voz. O grande jogo de Halliday é, essencialmente, um RPG colossal.

Outro mérito do livro é destacar os jogos de tabuleiro, com ênfase em Dungeons & Dragons e constantes menções ao seu co-criador Gary Gygax. Logo após, mencionar a evolução do RPG para computadores pessoais jurássicos, onde você se divertia lendo o texto gradualmente lançado no ecrã, sem imagens, e respondendo às perguntas. Daí, o jogo seguiria o caminho "x" ou "y" a cada resposta ou conjunto de respostas. Quando criança, via pessoas mais velhas jogando RPG de mesa, com canetas, caderninhos para anotações e caralhada de dados. Achava fascinante, mas nunca joguei. Apenas admirava a beleza dos livros, dados e alguns cartões. Também cheguei a ver jogos vendidos como suprimento de informática, até mesmo em disquetes de 5 ¼”. Quando guri, tive acessos esporádicos a um PC monstruoso com esse floppy disk, mas eu era muito pequeno e não sabia como usar aquele troço e sequer recordo que máquina era aquela. Mas me encantava.

Ainda sobre Gary Gygax, em dado momento seu nome é posto ao lado de Bill Gates. E isso me recordou algo: a relação entre Ogden "Og" Morrow e James Halliday, no romance, tem muito a ver com a amizade entre Gates e Paul Allen, a qual mencionei brevemente em postagem anterior. "Og" possui muito de Paul Allen, especialmente o estilo de vida descolado, associando lucro a fascismo e tendo saído cedo da vida corporativa para desfrutar seus bilhões num cotidiano de luxo e excessos, enquanto vomitava mantras batidos sobre os males do capitalismo.


Tributo aos anos 80' por Jim'll Paint It

Voltemos à pobreza cultural da obra. No filme, não encontramos nenhuma referência erudita. Mas no romance, há ao menos umazinha. E decisiva! No cinema, apenas no jogo Atari Adventure é onde se encontra o enigma final a ser solucionado. Sempre gostei deste joguinho e recordo de minha infância, conquanto nunca tenha encontrando o easter egg de seu criador, Warren Robinett. Em alguns documentários como A Era do Videogame ou A História do Videogame, sabemos que a Atari tornou-se arbitrária com seus designers e programadores, quando foi adquirida pela Warner e chefiada por Ray Kassar, ignorante no assunto. Quando programadores geniais a exemplo de David Crane exigiram melhores salários e reconhecimento, foi de Ray a célebre e estúpida colocação de que não haveria diferença entre o designer de sucessos comerciais e o "John Smith" que montava o cartucho na esteira de produção sabe-se-lá-onde. É como querer atribuir idênticos salários a um Médico Cirurgião e ao zelador da clínica. Não sejamos românticos, colegas. Trabalhos distintos pedem prestígios e retornos distintos. Logo após, vários caras saíram daquela bodega e montaram a hoje poderosa Activision. Robinett foi mais brincalhão: escondeu seu nome no jogo Adventure, atestando ter sido sua, e não da Warner, aquela criação. Já no romance, antes de Adventure, Wade/Parzival precisa jogar Tempest, também da Atari. Ele é pego de surpresa com o desafio, mas as pistas foram deixadas às claras pelo magnata defunto.

Na trama escrita, a arrogante garota geek Samantha Cook - vulgo Art3mis - afirma que Tempest, no terceiro nível, seria óbvio. O de cujus havia consignado em seus registros que "É preciso deixar um pouco mais difícil essa conquista, para que a vitória fácil demais não desmereça o preço". Tal citação é de Shakespeare em sua última peça: A Tempestade.

Enfim: não sou erudito. Mas sei que devemos manter contato com a erudição e não ceder integralmente à estética maleável, açucarada e gordurosa da cultura pop. Certamente, nesta, encontramos bons e relevantes feitos à nossa formação. O ponto está no equilíbrio entre ouvir os grunhidos roucos de Axel em Guns 'n Roses e as variações para cravo de Johann Sebastian Bach. Existência apenas de punhetação no mundo que hoje denominamos "geek" (palavrinha tão fedida quanto "nerd") é, creio, miserável.

Esta postagem foi elaborada mais para quem ao menos assistiu ao filme. Por isso não me estendi tanto quanto ao enredo e demais detalhes e referências. De qualquer forma, se você desconhece a história, assista-a: é bem divertida para quem está na casa dos quarenta anos e manteve contato com cultura pop em sua pobre formação em clássicos da Sessão da Tarde e fichas de fliperama. Quanto ao livro: boa leitura, dinâmica, esperta e faz valer o tempo dedicado. Certamente não é uma obra prima e, creio, sequer o autor nutriu tal afã.

Durante algumas passagens, você sentirá o texto meio artificial, como se o autor tentasse forçar a barra para encaixar o máximo de referências culturais por página. Mesmo assim, o resultado, como alhures dito, foi satisfatório. O oposto se deu em Armada, seu segundo romance o qual, creio, comentarei mais à frente neste blogue. Armada é bacana se lido descompromissadamente; porém, pobre ao tentar repetir a fórmula de Jogador, com tanta forçação de barra nas referências sci-fi que pode, às vezes, dar vontade de abandonar a leitura.

Fico por aqui. Abraços oitentistas e até a próxima.



Porque ler de graça é mais gostoso...

sábado, 11 de janeiro de 2020

D'O Berço do Herói a Roque Santeiro


“Tô certo ou tô errado?" - Sinhozinho Malta

A vida de noveleiro me deixou no ano de 2004 para nunca mais retornar. Na verdade, a TV aberta ficou quase totalmente no passado, em minha vida, mais ou menos neste mesmo período. As últimas telenovelas vistas de cabo a rabo foram: Da Cor do Pecado (das sete), onde torci pelo sucesso do casal Preta e Paco, e Celebridade (das nove), quando, de certa forma, tomei partido da "vilã" Laura (Cláudia Abreu), pois achei que, realmente, Lineu (Hugo Carvana) merecia morrer e a "mocinha" Maria Clara (Malu Mader) não passava de uma sonsa oportunista.

Aos dezesseis anos de idade, na banca de revistas Terceiro Mundo situada na Avenida Rio Branco de meu sublime torrão, vi exposto o livro O Bem-Amado de Dias Gomes, mencionado desde a capa como "farsa sócio-político-patológica em 9 quadros", em apenas um ato. Conhecia teatro lendo Ariano Suassuna e Skakespeare e o formato não foi novidade para mim. Contudo, Dias Gomes foi paixão à primeira leitura. Logo após, na mesma banca, comprei Sucupira: ame-a ou deixe-a, venturas e desventuras de Zeca Diabo e sua gente nas terra de Odorico, o Bem-Amado. No caso, tratam-se de roteiros escritos para a televisão e me surpreendi seduzido por aquela forma narrativa dinâmica. Depois, trouxe para casa a peça político-ideológica A Invasão e, mais de dez anos à frente, comprei O Berço do Herói.

Todos os livros são da Betrand Brasil, incorporada ao Grupo Editorial Record. Atualmente, em algumas pesquisas, verifico que continuam a publicar trabalhos do autor com novo trabalho gráfico. Gosto mais da primeira leva de capas. Talvez ainda garimpe por aí edições da primeira versão desta coleção para completá-la. Talvez... pois ando lendo mais "formato digital gratuito".

Recordo bem das notícias do falecimento do autor em 1999, ao mandar o taxista acelerar para chegar logo à sua casa após ter jantando numa cantina italiana. Tragicamente, após a colisão, seu corpo foi arremessado pela porta aberta e comprimido entre o veículo e uma estrutura urbana. Para mim, ali, falecia um dos melhores autores de folhetins para TV, ao lado de Aguinaldo Silva, Benedito Ruy Barbosa, Gilberto Braga e Sílvio de Abreu. Diferente de todos os colegas autores mais badalados, Dias Gomes chamava atenção pelo estilo de vida radical chic, comendo caviar e arrotando comunismo, aproveitando seu trabalho para espalhar sua doutrina macabra com bastante bom humor. Ele foi realmente muito bom ao que se propôs. Fui noveleiro até o ano de 2004 e conhecer Dias Gomes, especialmente por Vale A Pena Ver de Novo, me fez colocá-lo no pódio dos melhores. E no pódio dos mais chatos, igualmente. Oportunista, exigiu retornar à frente de Roque Santeiro quando percebeu o sucesso da novela nas mãos de Aguinaldo Silva.

O fantástico em Dias Gomes sempre me pareceu plausível. Criança, morria de medo do Professor Astromar Junqueira que, ao som de Zé Ramalho, transformava-se em lobisomem. Eu era muito pequeno e mantenho essa memória. Utilizo programas televisivos como marcadores temporais para identificar dada fase passada de minha vida. Acompanhei integralmente seu derradeiro trabalho O Fim do Mundo, na verdade uma minissérie rotulada de telenovela para tapar buraco na programação. Em 2013, pudemos apreciar o onírico e o surreal no remake de Saramandaia. Mas Roque Santeiro, para mim, sempre será a melhor novela de todos os tempos, até porque não as vejo mais para tecer comparações. É um trabalho perfeito: enredo inteligente, cáustico e bem humorado, ótimas atuações, caracterizações inesquecíveis como Sinhozinho Malta e Viúva Porcina, ambientação, produção de arte, figurinos e trilha sonora.

Ao começar a ler Dias Gomes, descobri a origem de Roque Santeiro na peça O Berço do Herói. Nesta, Cabo Jorge é dado como morto em confronto direto com nazistas durante a guerra, tornando-se logo herói nacional, personagem constante em obras militares, nome em destacamento e, inclusive, sua cidade Natal passa-se a chamar... Município de Cabo Jorge. Após dez anos, anistiado de eventual crime militar, ele retorna como mero cagão, assassino de camponês italiano para assumir seu lugar e, assim, fugir do conflito. Descobre, então, que inventaram toda uma história lucrativa sobre si, a viúva que nunca fora sua esposa - Antonieta - e que o Major Chico Manga fora o mentor intelectual de quase todas essas bobagens. A vinda a público de seu retorno e a verdade sobre sua história levará a cidade à falência e o Exército ao ridículo. O que fazer? Dar cabo do Cabo, ora. Esse mote caiu em desgraça junto às Forças Armadas brasileiras, por debochar da instituição de heróis nacionais de coturno. Tanto é assim que a novela teve trinta e seis capítulos gravados na década de '70 e, por decisão do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), nunca foi ao ar. Numa escuta clandestina, arapongas do Governo flagraram Dias Gomes assumindo que Roque Santeiro seria O Berço do Herói com nova roupagem. Ao invés de desertor, Jorge (cujo nome agora seria Roque) se aproveitaria do saque de cangaceiros na cidade de Asa Branca para roubar o ostensório de ouro da igreja, capar a mula e começar nova vida a Europa. Mas ficou o mito que o santeiro local, na verdade, lutou e morreu contra os cangaceiros, protegendo a Igreja.

Em 1985 a trama pode, definitivamente, ser gravada para exibição. No elenco, mantiveram o insuperável Lima Duarte, também famoso, à época, pela interpretação de outro personagem icônico do escritor baiano: Zeca Diabo.

Achei bacana, neste momento, indicar livros do dramaturgo gauche caviar, ao mesmo tempo em que recordo minha fase noveleira, a qual tanta diversão me trouxe, da infância à adolescência.

Fico por aqui. Abraços televisivos e até a próxima.




quarta-feira, 27 de novembro de 2019

O Americano ou Um Homem Misterioso [ romance de Martin Booth ]


Assisti a Um Homem Misterioso dois anos após seu lançamento. Gostei bastante. Chamou minha atenção o aspecto silencioso da produção, onde apenas o essencial é dito. Depois, topei com o romance que deu origem ao roteiro e pensei: por que não comprá-lo? Nunca havia lido nada de Martin Booth (conquanto o conhecesse pela boa reputação) e pareceu bem vinda a oportunidade. A edição da Record é decente: brochura com orelhas, papel off-white de boa gramatura e fonte generosa. Assim, não cansamos tanto a visão. A tradução é de Marcelo Schild e a capa segue o padrão antigo da editora: emular o pôster da adaptação cinematográfica, com direito até mesmo à ficha técnica na quarta capa. Acho isso brega e de uma falta de criatividade tremenda. Entretanto, compreendo que são meios encontrados pelo mercado para promover a obra nas prateleiras (físicas ou eletrônicas). E, provavelmente, está dando certo.

O cinema apenas adaptou alguns elementos centrais da obra escrita. Gosto disso. Não me atraem tanto produções que tentam levar à tela todos os elementos do meio primevo. Penso que muita coisa é intraduzível de uma mídia para outra, e que a tentativa de quebrar essa barreira quase sempre mostra-se insatisfatória. Já comentei acerca desse fenômeno numa postagem antiga intitulada Terror Elegante: Fome de Viver e Coração Satânico. No filme, o mote é simples: homem misterioso chega a pequeno vilarejo italiano para se esconder de possível perseguição e, ao mesmo tempo, atender ao que seria sua última encomenda: adaptar uma arma e lhe dar abafador de ruídos. Durante esse tempo, o armeiro é visitado pelo “habitante das sombras” que lhe parece ser uma ameça à vida e, ao mesmo tempo, mantém temor constante até mesmo em relação ao seu antigo colega de trabalho.

No romance, a história é mais longa e complexa, obviamente. O armeiro disfarça-se de pintor de borboletas (daí sua alcunha na região: Signore Farfalla; no filme, esse nome nunca é dito e o ator George Clooney se limita à tatuagem de borboleta evidenciada discretamente). Ele pensa em viver naquele vilarejo após concluir seu último trabalho e, talvez, ter como companhia para o restante de sua vida a bela Clara, universitária prostituta com quem se encontra esporadicamente. A amizade entre o protagonista e o padre Benedetto é bem explorada, com bonitos momentos de conversas entre amigos numa agradável varanda com a qual até temos uma certa satisfação a imaginando. O desenrolar da trama mudou essencialmente. O habitante das sombras que estabelece a vigília de Farfalla tem grande importância na conclusão do livro; já a atiradora, não, limitando-se apenas à compradora do produto. A relação com Clara é bem intensa e envolve idas à restaurante, passeio e até mesmo surubinhas com uma amiga da universitária. Como, no livro, o protagonista reside na Itália já há bom tempo, ele possui um pequeno círculo de amigos bem diversificados. Não é tão solitário quanto no cinema.

No cinema, a trama inicia-se com o assassinato de uma possível namorada de “Farfalla” por ele mesmo, como forma de proteção após escapar de uma emboscada. No romance, tal evento é melhor detalhado mais ao final da trama. E como este fato fechou ainda mais o armeiro a relacionamentos estreitos.

O livro é bom. Vale a pena como entretenimento rápido. Suas mais de 360 páginas são lidas rapidamente, embora o autor pudesse ter suprimido várias páginas se purgasse o texto de descrições repetitivas e outras supérfluas. Se você espremer bem o volume, acho que daria uma novela de duzentas páginas num ritmo mais dinâmico. O estado espiritual do Sr.° Farfalla é repetido à exaustão, seus planos, divagações e sonhos. A paisagem urbana e campestre do vilarejo também, assim como a residência de nosso anti-herói. Além disso, percebemos que o autor repassa ao fabricante de armas (artista, como gosta de ser visto) suas introspecções pessoais. E, colegas, como a cabeça de Martin Booth é confusa! Ele nos cansa um pouco com suas críticas à sociedade moderna, despojada e com ânsia de revolução (viciada pelo progressismo sem meditação) e, ao mesmo tempo, volta atrás para atacar instituições tradicionais, especialmente a Igreja. Vai entender. Em um momento, por exemplo, ele nos repassa o mantra conservador: “É melhor mudar o modo como um homem percebe o mundo do que mudar o mundo que ele percebe.” (p. 50). O reacionarismo negativo (sim, há o positivo) de Martin Booth fica ainda mais evidente nas linhas abaixo:
No centro do Corso, fechado para todo tráfego exceto para ônibus e táxis, os quais são poucos nesse horário, homens caminham de braços dados, às vezes de mãos dadas. Esta não é uma cidade de bichas, um antro de veados, uma mina de ouro para o charlatão com um tratamento para a Aids feito de sementes de damasco amassadas com quinino. É a Itália na qual homens ficam de mãos dadas enquanto conversam sobre as esposas, amantes, sucessos nos negócios e os fracassos do governo.
Entre essas oscilações meditativas do autor refletidas em seu anti-herói, onde valeria a pena tentar mudar o mundo, deixar sua marca na história a todo custo (como um bom demente iconoclasta), ainda há momentos onde ele observa que apenas a morte muda algo, especialmente (ou essencialmente) de personalidades influentes. Assim, chega a asseverar num parágrafo de uma frase só: “Somente assassinatos alteram o mundo” (p. 264). E, para reforçar ainda mais a “bipolaridade” (ou melhor: esquizofrenia literária do Martin Booth), o armeiro, após destilar todo o seu ódio e descrença na Igreja, trava amizade íntima e confidente com o pároco local, homem extremamente convicto da fé que professa. E, após disparar contra tudo e todos, Farfalla ainda nos assusta afirmando (p. 305):
Vivemos no final do século XX, evitei cuidadosamente usar o nome do Deus cristão em vão. Tenho respeito pelas religiões dos outros: afinal de contas, trabalhei para várias causas – islamismo, cristianismo, comunismo. Não tenho a intenção de depreciar ou insultar as crenças alheias. Nada pode ser ganho através disso, salvo controvérsias e a satisfação dúbia do insulto.
Um fato curioso encontrado em livre pequisa minha na internet é que, após a divulgação do filme, a Bantam Books publicou o romance com o título cinematográfico The American, destacando em letras menores “Previously published as A Very Private Gentleman / Now a major motion picture”. E a capa do volume foi a mesma escolhida pela Record. Achei isso meio assustador. Não bastasse a influência do cinema na escolha da capa, chegou-se ao ponto de alterar o nome original da obra. E veja mais: neste caso, The American para o romance é um desastre. É que, na obra escrita, não sabemos a nacionalidade do Signore Borboleta. Os nativos acham ser inglês. Entretanto, tudo é obscuro. Grande bola fora do mercado editorial. E, penso, falta de respeito com o autor, falecido em 2004. Acredito que, atualmente, o copyright pertença à família do escritor, que está cagando e andando para seu legado, desde que dê bastante lucro antes que caia em domínio público. Mas prefiro não julgá-los demasiadamente, pois todo mundo gosta de bufunfa graúda na conta bancária.

Bom, é só isso que tenho a comentar acerca do livro e seus paralelos com a adaptação cinematográfica sem entregar muito da trama. Abaixo, deixo os colegas com duas ótimas cenas onde nada é dito com palavras: quando o armeiro fabrica o supressor e, depois, o teste no campo ao lado da belíssima Thekla Reuten.

Abraço allegro ma non troppo!


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Forrest Gump de Winston Groom



"Preciso fazer xixi."
Gump, Forrest

Eric Roth levou para casa o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por Forrest Gump, desbancando Frank Darabont pelo trabalho em Um Sonho de Liberdade. Acho esquisito isso, pois penso que deveria ser Melhor Roteiro Original, considerando sobretudo que seu trabalho magistral não tem quase relação alguma com o livro mediano de Winston Groom. Este, certamente teria caído em total esquecimento se não fosse pelo filme. São raros casos assim, mas existem. Às vezes, a adaptação para o cinema fica melhor que a obra primeva. Podem me criticar e achar o contrário, só creio, por exemplo, que livros como Clube da Luta, A História Sem Fim e Entrevista com O Vampiro (dentre outros) só vendem bem porque tiveram roteiro adaptado superior ao original.

Não falarei tanto sobre o brilhante filme de Robert Zemeckis porque, se você nunca o viu, falta algo em sua vida. Corra atrás urgente! Acerca do livro, destaco de plano ser escrito tentando emular a linguagem coloquial, com supressões inclusive de letras. Nada de novo sob o sol, vez que, aqui mesmo no Brasil, autores modernos tentavam artifício similar há décadas. A trama é narrada em primeira pessoa e não tem nada a ver com o cara num banquinho de praça contando sua vida extraordinária. São memórias de uma vida de alguém classificado como idiota savant. Basicamente, um burro prodígio. E assim é Forrest, incapaz de se sair bem numa prova escrita de Educação Física porém brilhante em cálculo avançado. Aliás, esse seu dom para matemática foi posto de lado no filme. No livro, bom número de páginas é dedicado à sua fase estudantil, onde praticamente vivia isolado e sem amigos. Até mesmo Jenny Curran não foi grande presença em sua infância. Sequer sua mãe o foi em sua vida, sempre se dirigindo a ele qual um reles idiota. E tampouco Gump foi um filho tão bom como o construído no cinema.

Deveras, o Gump de Winston Groom se envolveu em feitos extraordinários: a) jogou bem futebol americano e, aliás, é dotado de grande porte físico; b) teve papel importante na abertura comercial chinesa jogando pigue-pongue; c) foi ao Vietnã e retornou com honras; d) viajou pelo espaço acompanhado de uma cientista e um orangotango que o acompanharia pelo resto de sua vida; e) perdeu-se na África por anos, quando sua espaçonave caiu, convivendo com canibais; f) ganhou muito dinheiro com camarão; g) se mostrou grande músico, integrando até mesmo uma banda; h) foi exímio enxadrista; i) abandonou tudo para acabar sua vida tocando em ruas, a troco de... trocados, sendo sempre acompanhado pelo Tenente Dan e o gigantesco símio.

Forrest Gump é um livro para mero entretenimento, cheio de trechos que não convencem, às vezes mal construído e com único propósito de tentar ser cômico. Não espere sequer uma página dramática. Até mesmo seu reencontro com Jenny e seu filho, ao final, é rápido e por mero acaso, vez que ela está bem casada e o marido mostrou-se bom padrasto para o garoto. Não há muita relação com o Gump de Roth/Zemeckis, a não ser poucos aspectos. Não compreendo sequer por que a capa do livro traz o icônico banco de praça do cinema, já que a narração se dá à toa, a esmo, sobre toda uma vida. O próprio narrador-protagonista nos diz, ao final, que de repente envelheceu, chegando aos 60 anos de idade. E é só. Ele não narra sua vida a ninguém, mas a si mesmo.

O filme de 1994 ficará para sempre na História. Às vezes eu preferiria nem ter lido o romance, pois parece sujar as vivas imagens que possuo da trama desde que, adolescente, loquei o VHS assim que lançado e, anos à frente, o gravei quando exibido pela primeira vez na Tela-Quente da Globo. Mas foi uma leitura rápida e não tomou bastante tempo. E serviu para reforçar minha visão sobre o Cinema enquanto nobre forma de arte, jamais abaixo da Literatura, como teimam alguns.

A edição comemorativa de 30 anos de Aleph, por sua vez, é linda. São 392 páginas de papel pólen bold 90 g/m² em capa dura com relevo e sobrecapa dupla face, com generosas fontes coloridas que respeitam nossa visão cansada. O projeto gráfico é impecável e tenta nos remeter à alma americana, com suas cores, listras, estrelas e um trabalho tipográfico entre capítulos similar às chamadas de época (parabéns ao Pedro Henrique Barradas). As ilustrações de Rafael Coutinho são razoáveis vez que o próprio artista é apenas razoável. A tradutora Aline Storto Pereira deve ter suado bastante para encontrar, em nosso idioma, o tom coloquial e simplório buscado pelo autor.

Em resumo: se algum dia estiver com bastante tempo livre e certa curiosidade, leia este romance. O filme, veja e reveja até as imagens colarem em seus miolos. Ah, e a caixa de bombons também está lá, no primeiro parágrafo, apenas para situar o narrador como alguém de ideias desconexas: "Deixa eu te dizer uma coisa: ser idiota não é nenhuma caixa de chocolate.".

Abraços achocolatados e até a próxima.