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terça-feira, 15 de junho de 2021

A decisão de Cascão [ Quadrinhos ]

 


A Turma da Mônica é a grande realização de Maurício de Sousa, gênio da nona arte que criou o belo universo do bairro do Limoeiro, as turmas da Mata e do Penadinho bem como o universo pré-histórico que adoro: Piteco e seus amigos primitivos, habitantes de Lem, e o pequeno tiranossauro filósofo Horácio. Além disso, não posso deixar de fora meu amado Chico Bento e os caipiras da Vila Abobrinha. Para quem não sabe, conquanto não produza mais quadrinhos de próprio punho, Maurício é excelente escritor e desenhista. Basta conferir sua produção autoral.

Até metade dos anos '90, todas as revistas do Maurício de Sousa Produções (MSP) eram boas ou ótimas. Não recordo de gibi ruim. Mas com o tempo isso mudou. Os estúdios abraçaram a pauta engessada do politicamente correto e tudo perdeu a graça. Assim, por exemplo, o povo da roça não pode mais caçar nem cortar lenha. Todos são amigos da "Mãe Natureza". Como se usar gás de cozinha e comprar em supermercado fosse ecológico! O mesmo vale para os índios Papa-Capim e Cafuné. Mônica não é mais tão agressiva, Magali evita exageros gastronômicos, Cebolinha trata a dentuça com bastante deferência e, além das pautas lacradoras, a arte está sofrível, com praticamente carimbos digitais em cada página. As capas que eram piadas (gags) tornaram-se meras referências às histórias principais. Afinal, pra quê pensar demais ao se produzir gibis?

Neste mundo insosso, Cascão agora até é limpo. Evita tomar banhos, mas às vezes retira a sujeira e alerta para os benefícios da assepsia. Isso porque as crianças poderiam deixar de tomar banho lendo gibis. É como porque deixaram de representar ratinhos com formas fofas: os guris poderiam sair por aí catando ratazanas e beijando-as no focinho, no mundo real. Quanta bobagem. Isso mais ainda se considerarmos que Um Amor de Ratinho é uma das histórias clássicas de Mônica, inclusive adaptada para o cinema numa animação fofinha e lançada em formato livro infantil.

Esses dias, reli a HQ Cascão n.° 47 (editora Abril), publicada em maio de 1984 e republicada em 2015 pela Coleção Histórica. A partir da capa já vemos como era fantástico o trabalho do MSP: o sujinho de penetra na Arca de Noé, para escapar das águas. E, no miolo, dentre tantas histórias bacanas, temos até espaço para divagações metafísicas, num experimento quadrinístico onde divagamos com uma gota de orvalho. A história "A Decisão" foi escrita por Maurício de Sousa e desenhada por Beto. Em quatro páginas com repetição de requadros, o artista optou por ilustrar um a um, sem recorrer a reprodução mecânica de copia-cola (paste-up). Cascão, ao ver a gotinha de orvalho na iminência de cair sobre sua cabeça, divaga como o acontecimento poderia mudar tudo. Ele se tornaria outra pessoa: "Tudo muito simples! É só ficar parado aqui e pronto! A minha vida vai mudar totalmente.", resume. E conclui: "Mas quem disse que eu quero mudança?". E a gotinha que poderia mudar tudo ficou lá, durante quatro requadros, aguardando evaporar e não sobrar mais nenhum traço do que ela poderia representar.

É isso. Em 1984, Cascão optou por ser ele mesmo. Mas bastou a pauta de engajamento lacrador chegar aos Estúdios e tudo se perdeu, sem mais explicações, de forma abrupta. E toda a mitologia construída por Maurício e sua equipe de profissionais competentes foi por água abaixo (sem trocadilho).

Li uma postagem de 2009 escrita por alguém que não é leitor contumaz dos títulos MSP e que teve em mãos, por acaso, um gibi da Turma da Mônica Jovem. Ali, ele mostra seu assombro pela castração da identidade dos personagens e elabora excelente reflexão sobre o paradoxo do politicamente imbecilizante: a pretexto de respeitar as diferenças, Maurício tolheu os aspectos mais intrínsecos de seus personagens, tornando-os todos iguais. E, assim, abandonou a grande lição da vida: nos aceitarmos como somos e sabermos lidar com nossas diferenças. Se tiverem interesse, confiram no A Marreta do Azarão.

Abraços assépticos e até a próxima.





segunda-feira, 3 de maio de 2021

Dois Mil e Um Chopes, HQ de Thiago Ossostortos

 


Só depois de muito tempo
Comecei a entender
Como será meu futuro
Como será o seu...

Ira em Dias de Luta

Quando eu era guri, meu tio Dorival comprou um MP Lafer em bom estado. Hoje, sei que esses carros são caros. Mas ele sempre soube ganhar dinheiro com facilidade. É daqueles homens sem o primeiro grau escolar concluído e cheios da grana, pois sabe se dar bem em todos os negócios onde investe. Cheguei a ver este mesmo tio vendendo urgentemente um de seus empreendimentos (restaurante) porque o local deu tão certo que vivia cheio de clientes ao ponto de estressá-lo devido à logística. Ele também possuía um belíssimo Fusca Baja superequipado e penso que apenas aqueles pneus traseiros dariam para comprar meu carro atual. O MP Lafer acabou ficando direto com minha prima mais velha, Deise, que o pintou de rosa-choque e passou a chamá-lo de Astrogildo, devido à telenovela global onde tal carro fazia sucesso com este mesmo nome.

Em Dois Mil e Um Chopes, o autor/protagonista nos diz que seu pai possuía veículo idêntico. No final da história, há até fotografia "de prova". Além disso, como tudo em Ossostortos, somos inundados por recordações daquela época quando o mundo parecia mágico e constantemente inovador. Está tudo lá: videolocadoras movimentadas com pôsteres de Matrix, A Vida É Bela e O Troco ou, na banca de revistas usadas, os formatinhos de Arma X e Batman Lobo. Curioso: o cara cresceu em São Paulo (Capital e interior) e sua vidinha besta não foi diferente da que tivemos no interior de Pernambuco. A fórmula mágica do quadrinista deu certo novamente neste gibi em formato de cardápio de choperia (livreto com bolacha de chope inclusa): espremer suas memórias, compartilhá-las conosco e nos levar ao passado (nem tão perto, nem tão distante).

Na trama, o candidato a quadrinista narra período de sua vida onde precisou residir em São José do Rio Preto e como saiu de lá para, sozinho, para tentar a sorte em Sampa, indo morar na pensão de Azani, personagem essencial de sua HQ anterior Mjadra. Certamente, seu Messias (pai do Thiago) também é figura relevante. Não com tanto destaque como em Os Últimos Dias do Xerife, certamente. Mas é que, aos poucos, todos esses quadrinhos compõem um grande mosaico da vida do artista. De certa forma, ele está escrevendo sua autobiografia em pedaços e técnicas variadas (lápis e nanquim tradicionais, guache, rabisco-decó colorido etc.). E vem sendo agradável acompanhar tudo. Torço para que continue produzindo por anos a fio, pois seu trabalho foi uma grata surpresa para mim, leitor. E pensar que cheguei a comprar seu primeiro gibi porque o confundi com outro autor de quem, há anos, comprei um fanzine.

Num dado momento, Thiago vê Guns N' Roses tocando no Rock In Rio 2001 e mostra sua estranheza com a nova formação. Foi o mesmo sentimento que tive quando assisti (pela TV) e vi aquela banda capitaneada por um Axl Rose bizarro e, no lugar de Slash e Izzy Stradlin, o medonho Buckethead.

São muitos momentos condensados em poucas páginas, mas todos onde pude me localizar. Recomendo bastante este lançamento para quem pretende dar chance à produção nacional (a qual, em maior parte, anda uma lixeira). Além das HQs acima mencionadas, sugiro também Kombi 95. Aliás, no acervo de meu tio Dorival também havia uma Kombi!

Fico por aqui. Abraços tortos e até a próxima.




domingo, 18 de abril de 2021

Uma Vida Chinesa, HQ de Ôtié e Kunwu

Delícias do comunismo...

O quase subtítulo de Uma Vida Chinesa ("De Xiao Li a Lao Li") nada mais quer dizer do que "Do Pequeno Li ao Velho Li". Trata-se, pois, de visão das profundas transformações chinesas, desde a insanidade da Revolução Cultural até o desenvolvimento financeiro (mas jamais humano) conquistado após a morte de Mao Tsé-Tung, com melhorias notáveis em relação à mortandade existente devido à fome extrema, ausência de higiene básica e expurgos (linchamentos públicos, detenções em campos de concentração e execuções sumárias).

Penso nada chamar tanta atenção no comunismo quanto à fome massiva, onde grande parte da população falece devido à falta do mínimo para dormir de estômago forrado. A documentação acerca do canibalismo na Rússia pós-revolucionária é farta hoje em dia, sem contar o Holomodor ucraniano. Em relação à China maoísta, dados oficiais apontam em torno de 10 milhões de mortes decorrentes de inanição. Imagino os dados reais, além dos oficiais. Acredita-se que na Coreia do Norte, ainda hoje, pratique-se o canibalismo de entes queridos recém falecidos. É muita proteína para se jogar à terra. E, neste gibi, a fome é retratada de maneira crudelíssima - como foi, ora - por quem a testemunhou, o Pequeno Li, hoje artista gráfico consagrado.

Sempre me interessei por Deng Xiaoping e seu pensamento à frente do tempo, dentro do Partido. O comunismo se converte em seu oposto tantas vezes quando for necessário, consumindo-se em seu processo dialético, onde todos os meios são válidos para a saúde do Partido, seus líderes e classe burocrática. O fim sempre foi concentração de poder num partido hegemônico, controle social intenso e supressão da individualidade. Deng Xiaoping acreditava no capitalismo dentro da vida chinesa, pois ele seria apenas mais um meio dentre tantos, sem prejudicar a essência do regime; pelo contrário, lhe dando força e sobrevida. Não é à toa que o líder político foi perseguido pelos maoístas mais ferrenhos, enfrentando anos de fuga e isolamento.

Enquanto poucos membros da intelligentsia comunista ao redor do globo percebiam que o capital era apenas a superestrutura do sistema ocidental a ser combatido, Deng Xiaoping  e seus asseclas já o sabiam. E por isso foram vitimados pela insanidade da Revolução Cultural e seus expurgos. Estes, prática comum dentro dos delírios do comunismo, impingindo humilhações públicas, linchamentos e mortes por razões quase sempre obscuras ou até mesmo inexistentes. Os expurgos no stalinismo, por exemplo, eram realizados a toque de caixa, por meros cálculos matemáticos: determinada parcela de dado povoamento, considerando sua estimativa populacional, deveria ser executada. Simples assim. Com isso, aos poucos, mudariam o tecido social e isso precipitaria a revolução ao "fim da História", seja lá que merda for essa. É muita loucurinha nessas cabecinhas vermelhas.

Xi Zhongxun, pai do atual líder político chinês Xi Jinping (o pai da Covid 19, conhecido graciosamente por Ursinho Pooh), foi vitimado por vários expurgos, entre idas e vindas à vida ativa dentro do Partido. E assim foi com o pai do autor/protagonista deste gibi, Li Kunwu (o pequeno e velho Li do subtítulo). Seu genitor, de membro ativo do Partido a escravo numa colônia de reeducação, retornou à vida pública ocupando bons cargos tão logo o pensamento de Xiaoping se sobrepôs ao de Mao Tsé-Tung: dinheiro, propriedade privada e mercado seriam necessários para a vida chinesa dominar o mundo com sua doutrina. Que doutrina é essa afinal, nos tempos atuais? Controle social intenso, burocratas ricos, capitalismo de compadrio. Só. O marxismo muda ao sabor da ocasião e continua sendo comunismo mesmo assim.

Vemos a revolução chinesa, de Mao até os tempos modernos (O Tempo do Dinheiro, como diz o autor desde a capa do terceiro volume), pelos olhos do ilustrador de jornal e propagandista Li Kunwu, com auxílio do francês Philippe Ôtié nos roteiros e direção técnica.

Felizmente, esta obra nos chegou pela WMF Martins Fontes. A maioria das editoras lacradoras que possuímos, certamente, jamais publicaria algo assim. Mesmo que, dentre tanto sofrimento e a previsão de povir endinheirado igualmente sinistro, Li Kunwu conclua sua narrativa feliz consigo mesmo, por ser chinês, viver o modo de vida chinês na China e estar na China. É e foi a única existência conhecida por ele: uma vida plenamente chinesa. E ele está em paz com isso.

Os volumes são divididos em I. O Tempo de Meu Pai, II. O Tempo do Partido e III. O Tempo do Dinheiro. As capas de cada volume explicitam a evolução social: de casebres miseráveis a arranha-céus, com Li Kunwu envelhecendo enquanto pinta murais publicitários: o grande Mao e o período revolucionário; o desenvolvimento econômico pós Deng Xiaoping e, finalmente, a arte do autor/protagonista empregada em publicidade privada (campanha de água mineral, com mulheres modernas e empoderadas).

O trabalho editorial ficou bacana: volume em capa cartonada com orelhas, fontes generosas, miolo em papel meio amarelado similar ao pólen bold e tudo com boa gramatura. Os três volumes vêm acondicionados num box meio fraquinho, mas o qual ajuda na organização do material. Andréa Stahel M. da Silva traduziu todas as três partes para nossa língua, publicadas entre os anos de 2015 e 2017. E aí está a parte ruim de ir comprando obras assim aos poucos: você perde a unidade de leitura, lendo-as aos pedaços, e ainda perde o box para acondicioná-las.

Optei por vídeo (abaixo) para melhor exibir os livros, no lugar de fotografias.

Abraços famélicos e até a próxima.

domingo, 11 de abril de 2021

Uma balada para o Mancha Negra

 

Imagem de meu acervo particular.

O hoje é distante da infância, mas aqui e ali, pelas colinas, aperto bem sua mão, que encurta distância.

Emily Patinson, em Poemas

Pateta Repórter é uma série de histórias publicada originalmente, na Itália, entre 2009 e 2015. Com roteiro de Teresa Radice e arte de Stefano Turconi, as tramas envolvem o protagonista atrapalhado realizando reportagens para o poderio midiático A Mancha Matinal, de propriedade de ninguém menos que Basil Blackspot (um dos vários nomes do arqui-inimigo disneyano Mancha Negra). Sempre sem querer, totalmente por acaso, Pateta consegue grandes furos jornalísticos, vai-se consolidando como maior repórter da cidade e, igualmente sem querer, constantemente mela os planos maquiavélicos de seu empregador e da gangue coordenada por Bafo-de-Onça, seu braço direito no mundo do crime.

Além dos ótimos roteiros, as quinze histórias contam com arte primorosa, merecedora do formato grande (16,5 x 24 cm), papel couché e capa dura. Foi um daqueles álbuns "de luxo" publicados pela Abril antes de sua falência. Pela própria editora, o título havia saído três anos antes (2013), em formatinho vagabundo e com cinco histórias a menos, excluída aí a que considero a melhor: Verão na Lagoa Verde, um conto que aborda de maneira poética parte da infância do vilão Mancha Negra. Certamente, por ainda estar inconclusa na Itália, o formatinho brasileiro não teria como ser a edição definitiva. Isto foi obtido nas 484 páginas da publicação de 2016.

Nesta história, o magnata das comunicações despacha Pateta por três meses para que ele escreva algum livro, visto todas suas matérias venderem a rodo. Além de embolsar grana com a publicação, Mr. Blackspot pretende se livrar de Pateta para que este não arruíne seu mais novo golpe: levar agricultores de um pequeno povoado à falência, comprar-lhes as terras e, assim, edificar grandes centros urbanos no local. Típico clichê de quadrinho infantil, claro.

Enquanto Pateta, de férias forçadas, aluga a pequena casa do lago, pertencente à família de Candy Mousengulp, a gangue de Bafo-de-Onça vai tocando o terror com os habitantes do vilarejo, usando pequenas tramoias: cupins, ursos e outros "acidentes". Assim, em pouco tempo comprariam as terras por ninharia. Mas, certa tarde, Pateta encontra uma caixa de biscoito embaixo do degrau falso da escada. Nela, achamos: o livro da poetisa Emily Patinson (brincadeira óbvia com o nome da poetisa americana Emily Dickinson), um diário sem nome de proprietário e uma pena para escrita, além de bolas de gude. Pateta mostra o achado a Candy. Ela diz se lembrar de quem era: quando criança, um menino alugava a residência da Lagoa Verde com os pais, para temporada. Então ela recorda como se divertiam e como ela lhe apresentou a poesia, inclusive emprestando o livro de Emily Patinson. Mas, de acordo com ela, de repente, aquela família sumiu sem aviso e jamais retornou. Como vemos nas reminiscências de Basil Blackspot, seus pais fugiram para o Paraguai após bem sucedido assalto a banco. Saindo assim às pressas, ele nunca pode devolver o livro a Candy, sua amada amiga.

Durante a história, conhecemos bastante do pensamento de Manchinha, à época, lendo-lhe o diário. Ele se apaixonou pelo vilarejo, a natureza, o belo céu cheio de estrelas, a poesia de Candy e, claro, pela própria Candy. Num dado momento, ele confessa que até seus pais ficavam mais felizes, quando no campo. E que na cidade apenas havia amargura, em meio a tanto concreto e asfalto.

Então chega o dia de Pateta retornar à cidade grande. Candy ainda não se recorda do nome do menino, mas recorda de seu sobrenome. Assim, manda Pateta levar a caixa pois, como está num grande jornal, talvez consiga devolvê-la ao dono, pesquisando sobre a família. Dentro da caixa, ainda encontra-se o livro de poemas. Já n'A Mancha Matinal, no escritório do magnata, Pateta diz não ter escrito livro nenhum mas que trouxe algo interessante, dispondo a lata sobre a mesa do patrão, o qual fica atônito. Nosso Pateta não é tão pateta assim e, sagaz, ainda avisa ao chefe que esqueceu de devolver a chave da casa na lagoa, praticamente esfregando-a no focinho do poderoso Mancha. Este diz possuir assuntos a resolver na região e poderia fazer o favor de entregá-la. Aí o restante é mais do que previsível: ele revisita a casa da Lagoa Verde, onde sentia-se realmente feliz, e depois bate à porta de Candy, agora casada e mãe de dois filhos. Assim que ela o vê, relembra seu nome e demonstra bastante alegria. Não sabemos se eles chegaram a conversar muito. A história dá um salto e mostra Candy com o livro de Emily Patinson em mãos. Basil Blackspot foi apenas devolvê-lo, após tantos anos de atraso. E, de dentro do volume, cai um cheque recheado de zeros - para que as famílias locais se recomponham dos prejuízos causados por suas ações mesquinhas, penso.

Num dado momento - e certamente não por acaso - é citada a família Thoreau. Henry David Thoreau foi o escritor naturalista que, preocupado com o êxodo rural excessivo e a dependência das grandes cidades e suas tecnologias, refugiou-se por alguns anos às margens do lago Walden, onde construiu sua própria habitação, plantou e produziu tudo o que consumia. Não há como dissociar isto dos anseios do então mancebo Mancha Negra. Ele queria apenas viver naquela casa velha, à margem da Lagoa Verde, plantando, colhendo e amando sua Candy.

É uma bela história e vale a pena conhecê-la.

Abraços líricos e até a próxima.







sábado, 20 de março de 2021

Quadrinhos de Charles Burns

Dias chuvosos

Chovia uma triste chuva de resignação.
Manuel Bandeira

Era como se eu visse o futuro. 
E o futuro não fizesse nenhum sentido.
Black Hole

A imagem acima é da janela do quarto de minha filha. Ela quase não utiliza o próprio quarto, exceto para brincar algumas horas ao dia. E desde que nasceu dorme comigo. Acho que chegará à adolescência assim, dormindo com os pais. Se fosse menino, tentaria forçar que dormisse só. Mas garotas podem se dar ao luxo de ser um pouco medrosas e querer o afago paterno enquanto dormem. Então quem usa bastante seu quarto sou eu, lendo ao lado desta janela fortificada. Meti grades aí por garantia porque ninguém sabe o dia de amanhã. Daí pra frente, não há quase casas, exceto algumas esparsas dentro de pequenos roçados. O local é tranquilo e o maior perigo sucedido próximo da janela foi uma jiboia.

Os dias estão chuvosos. Isso certamente é muito bom para quem planta, cria animais e precisa de florada nos próximos meses para produção de mel. Além disso, é quando barragens públicas e privadas serão abastecidas. É assim, igualmente, onde mantemos vivos lençóis freáticos. Não preciso falar sobre os benefícios das chuvas. Todos sabemos. O único problema é que estou com obras em casa e a chuva atrapalha. Neste exato momento, estou com dois pedreiros ali fora, com os braços cruzados admirando este belo dia de chuva. E receberão do mesmo jeito.

Dias de chuva são para estar em casa de boa, tomando café, fumando e, claro, lendo. E esses dias andei lendo e relendo bastante coisa. Aqui, destaco o trabalho insólito de Charles Burns, feliz descoberta em minha vida.

Meu primeiro contato com Charles Burns foi num pequeno conto encartado no estranho gibi Little Lit: Fábulas e Contos de Fadas em Quadrinhos, publicado pela Cia das Letras (acho que ainda não existia o selo Quadrinhos na Cia) em 2003. Tenho este gibi ainda hoje, devidamente guardado. A revista gringa Raw editava material regular de Burns, devido à amizade entre este e o casal radical chic Art Spiegelman/Françoise Mouly. E Little Lit reúne material da Raw. A "história" se chama Sustolândia e me passou quase desapercebida de tão ruim: na verdade trata-se de uma grande ilustração em página dupla, onde você deve encontrar ovos e serpentes! Vai entender...

Em meados de 2010, numa gibiteria em Recife, conheci Black Hole, em dois volumes pela Conrad. E, cara, pensei porque não tive a oportunidade de ler algo assim quando mais jovem. Mesmo adulto, me envolvi com a trama: adolescentes contaminados pela "praga juvenil" adquirem deformidades variadas (alguns se tornam monstros) e precisam se retirar, habitando matagais. Fui realmente tocado pela trama de dor e solidão de todas aquelas personagens, bem como pelos laços de amizade mostrados. Me senti com 15 anos de idade, entre meus saudosos amigos. A arte em elevado contraste (muito branco, muito negro) de Burns nos prende a atenção a cada página. E, claro, como não gostar de suas mulheres magrelas e peludinhas (bem old school). Sou entusiasta de xoxotas peludas, cada vez mais raras.

Depois, Black Hole saiu em volume único pela Darkside e, obviamente, comprei. Estou evitando comprar papel. Falei bastante sobre isso. Mas comprarei tudo o que sair de certos autores. Um deles é Charles Burns. A Darkside publicou, ainda, antologias de contos como Big Baby e e El Borbah. Certamente, comprei ambos os livros. Sua magnum opus continua sendo Black Hole. Devido à idade avançada do autor, penso que jamais fará algo tão bom, superando a si mesmo. Quadrinho exige bastante tempo e dedicação. Não é tão "simples" quanto apenas escrever, como enfatizou Lourenço Mutarelli.

Desde 2018, podemos ler a tradução de Sem Volta, pelo Quadrinhos na Cia. E tudo colorido. É o segundo melhor trabalho do autor, numa trama entrópica (a melhor palavra que me vem à cabeça para defini-la), com homenagens que vão d'As Aventuras de Tintim a William S. Burroughs. Não exatamente homenagens. As referências são essenciais à trama, bastante parecida com Daniel Clowes. Em Sem Volta, temos uma história dentro de uma história dentro de outra história e, aparentemente, infinita (sem fim, "sem volta"). Como sempre (parecido com as tramas de Chris Ware), temos homens brancos fracos perdidos na vida, mulheres putianes (fortes e determinadas), bizarrices inexplicáveis e todo mundo meio que se fodendo. Um retrato do ocidente contemporâneo, afinal. Parece lacração vazia, de longe. Mas não é. É a cara do ocidente e sua covardia, onde homens pequenos se rastejam para mulheres borderlines que já rodaram em dezenas de carrosséis de pirocas. A gadice masculina não possui tamanho e merece ser retratada cruamente.

Percebo que muita gente não gosta do autor. Acho que o apego ao mainstream faz isso conosco. Além de tudo, muita gente não se entrega fácil a enredos onde a realidade e o nonsense caminham lado a lado. E às vezes esses arroubos avant-garde parecem meio forçados por intelectualóides sem conteúdo, apelando ao insólito apenas porque não sabem mesmo realizar algo bom. Mas creio não ser esse o caso de Charles Burns e que, sim, vale à pena se dar à sua obra, em especial Black Hole e Sem Volta.

É isso. Só deu vontade de recomendar esses quadrinhos porque nunca escrevi nada sobre o cara e andei relendo suas obras. Também sondei o artbook Free S**t do artista. Mas ainda não o comprei. Se já leu dele e desgostou, dê outra chance.

Abraços e até a próxima.


Big Baby

El Borbah

Black Hole

Sem Volta


Sustolândia em Little Lit

quarta-feira, 10 de março de 2021

O Homem Invisível de H. G. Wells e Alan Moore


Cena de The Invisible Man (1933)

"O Senhor Wicksteed era um homem de quarenta e cinco ou quarenta e seis anos, intendente de Lord Burdock, de aparência e hábitos inofensivos, de modo que seria a última pessoa no mundo a provocar um antagonista tão terrível. Contra ele, o Homem Invisível usou uma barra de ferro que arrancara de um pedaço partido de cerca. Abordou o pacífico homem, que calmamente voltava para almoçar em sua casa ao meio-dia. Atacou-o, destruindo suas frágeis defesas, quebrando-lhe o braço, derrubando-o no chão e esmagando-lhe a cabeça até que se tornasse geleia."

Acho que o primeiro filme onde vi boa concepção d'O Homem Invisível foi no excelente O Homem Sem Sombra (2000, locado em VHS). Na verdade, à época, foi excelente para mim. Hoje, acho-o meio fraquinho. Mas ali estava toda a essência da obra de H. G. Wells, adaptada para o mundo contemporâneo. O cientista interpretado por Kevin Bacon torna-se extremamente cruel e insano, como efeito colateral à sua invisibilidade irreversível. Depois, conheci o "verdadeiro" Griffin em A Liga Extraordinária de Alan Moore e Kevin O'Neill. Entre tantas mentes malignas e até mesmo alienígenas, Griffin (mesmo integrando grupo de heróis vitorianos) desponta como o pior dentre os piores. Sua primeira aparição é habitando, escondido, uma escola para moçoilas, onde se passa por assombração para estuprar geral. No segundo volume d'A Liga, barbariza Mina Murray e, por isso, tem seu final tragicamente selado pelo Dr. Jekyll/Hide, com todos os ossos do corpo trucidados e, ao final, enrabado pelo monstro, deixado para morrer em agonia (e arrombado).

Não havia lido a obra primeva de H. G. Wells, até recentemente. E, colegas, Alan Moore foi certeiro naquela representação. O trecho transcrito acima evidencia como o físico é sádico. Contudo, antes mesmo de ingerir a fórmula, o sujeito era mau. Totalmente indiferente às pessoas, por exemplo, levou o pai ao suicídio ao roubá-lo. E fez questão de não tentar limpar sua honra na cidade onde morava e faleceu afamado por ladrão. Em dado momento, ainda zomba do suicídio, atribuindo-o à fraqueza do genitor.

N'A Liga, me causou estranheza que, após o último suspiro de Griffin, seu sangue aparece nas roupas de Hide e em todo o canto. Foi uma licença à ideia original de Wells. O sangue coagularia normalmente mesmo com seu dono ainda vivo. No romance, o louco invisível explica a seu amigo Kemp acerca disso: "É um grande incômodo ver meu sangue espalhado por aí, não é? Ocorre que ele se torna visível quando coagula. Modifiquei apenas o tecido vivo, portando a invisibilidade só durará enquanto eu viver.". O autor também tenta explicar o procedimento de invisibilidade de todos os tecidos com algo acerca de ótica e refração da luz. Achei interessante, aliás. Ao menos para a época quando foi publicado (1987).

Similar aos quadrinhos de Moore e O'Neill, o final do Homem Invisível também é trágico no romance. Só não rola, certamente, o enrabamento forçado. Aliás, é bom notar que Moore possui uma fixação esquisita por violação...

Outro aspecto da obra que poderia ser melhor aproveitado nos quadrinhos é o problema em estar invisível enquanto se digere alimentos, recebe gotículas de água, neve e sujeira. Isso acaba se tornando um inferno na vida de Griffin, além de passar bastante frio e machucar os pés nas longas caminhadas. No excelente filme Memórias de Um Homem Invisível (de 1992, visto por mim diversas vezes na Sessão da Tarde, mas que não considero meu primeiro contato o Homem Invisível próximo da concepção original, por se tratar de comédia e Chevy Chase ser vítima e não vilão), esses incômodos são explicitados. Há cena neste filme, aliás, que lembra o romance, além dos problemas com comida: o ato de fumar: "Depois de comer, e fez uma farta refeição, o Homem Invisível pediu um charuto a Dr. Kemp. Mordeu a ponta rudemente, antes mesmo que Kemp encontrasse uma faca para cortá-la, e queixou-se quando a folha do revestimento afrouxou. Era estranho vê-lo fumar. Era possível ver a boca, a garganta, a faringe e as narinas moldadas em uma fumaça espessa que rodopiava dentro dele".

No cinema, ao menos Chevy Chase tornou-se invisível junto com sua roupa e assim evitamos vê-lo peladão. Quando puderem, confiram o filme. Representa bem o auge de um tipo de comédia que se perdeu no tempo e ainda contamos com a beleza jovem de Daryl Hannah.

Em resumo: gostei de ler o romance. Não supunha ser tão bom. Via-o apenas como ficção científica e me deparei com puro terror. Além disso, a edição da Pandorga ficou excelente. Evito comprar livros impressos, mas naquelas promoções onde mal se paga o frete, adquiri o belíssimo box. Os livrinhos tiveram belíssimo trabalho gráfico, com capas super coloridas emulando livretos pulp e quadrinhos juvenis. O artista brasileiro responsável chama-se Butcher Billy. Na caixa, ainda temos A Máquina do Tempo e A Guerra dos Mundos.

Acerca da arte, infelizmente fica claro o artista desconhecer os livros. Vê-se claramente que sua concepção artística se deu sobre garimpo digital de filmes antigos. Sua concepção de Morlocks (humanóides d'A Máquina do Tempo), por exemplo, se baseia no filme de 1960, totalmente discrepante da obra escrita. Prefiro pensar que este foi o objetivo, num trabalho de capista cujo objetivo seria, justamente, remeter a pôsteres cinematográficos. Vai-se saber...

Não falarei sobre os dois outros romances (novelas) nesta postagem. Talvez noutra. Mas destaco me chamar atenção a apresentação de A Máquina do Tempo, onde os editores ressaltam que a civilização mostrada ali, no futuro (ano 802701, onde os Eloi(s) habitam na superfície e os Morlocks nos subterrâneos, "escravizados" para manter a vida boa dos "de cima"), constituiria "feroz crítica à sociedade industrial" da época do autor, pois este foi inspirado em Marx e era "conhecido defensor de ideais socialistas". Até aí, ok. Mas e o restante? Não compreendo a tara dessas editoras em advogarem comunismo a todo custo. Quando a novela foi escrita (publicação em 1895), sequer havia regime de mercado como hoje. Além disso, Wells morreu em 1946 e não testemunhou a abertura dos arquivos de Moscou, os números dos expurgos de Mao e Pol Pot e sequer chegou a saber do Holomodor (encoberta por anos a fio). Acho perigoso quando a esquerda festiva utiliza figuras do passado para enaltecer ideologias macabras. Aliás, penso que, atualmente, A Máquina do Tempo representaria bem o comunismo: Os Morlocks (cidadãos comuns) ralando por migalhas para manter os Eloi (políticos, burocratas e amigos do Partido).

Ademais, não há sistema de exploração no romance. Veja bem: de acordo com o Viajante no Tempo, a sociedade evoluiu em paz durante eras: "Os ricos enfim seguros com suas riquezas e confortos, os trabalhadores seguros com suas vidas e trabalhos.". Só que, num dado momento, o sistema degringolou: a aristocracia se deu cada vez mais a atividades meramente frívolas e emburreceram e os operários, proprietários de todo o maquinário no subsolo, passaram a supri-los em troca de alimentos. Ocorre que a carne passou a rarear e apenas os Eloi eram frugívoros. Logo o hábito ancestral do canibalismo retornou. E os Eloi, mais fracos, passaram a ser caçados durante a noite. O Viajante chega a enxergá-los como rebanho que pasta feliz durante as manhãs para, sem advertência, servir de alimento à raça mais forte: justamente os Morlocks.

Ao final da obra, o editor destaca os ideais feministas de Wells e, novamente, repete sua ideologia socialista (o cara seria quase o Fiuk!). Faltou um pouco de pesquisa, como sempre. H. G. Wells gozou de bastante prestígio ainda vivo e, logo, se inclinou aos ideais fabianistas, integrando a elite intelectual por trás da Sociedade Fabiana: pobres e classe média não deveriam existir se não para ser direcionados pela nata intelectual e econômica. Destaco que fabianistas célebres defenderam publicamente genocídios de "raças inferiores" e "pessoas inadequadas". Bernard Shaw, v.g.,  se esforçou para criação de gases letais que facilitassem a execução de homossexuais, negros, ciganos e povos subdesenvolvidos. Pois é... Wells era adepto do socialismo (fabiano).

Conhecido defensor de um mundo sem fronteiras, empreendeu bastante energia pelo fim de soberanias nacionais em prol de uma Nova Ordem Mundial, algo deixado claro em seu A Conspiração Aberta e em artigos e palestras. Felizmente, possuímos uma dessas palestras gravada, onde os ideais fabianistas do autor, que nada tinham de "amor ao próximo" - mas, sim, a implantação de um governo global - ficam claros para quem fez o dever de casa além dos livros made in MEC. E este Governo não existe sem totalitarismo, supressão cultural, expurgos e demais males de todo pensamento revolucionário.

Destaco ainda uma pérola encontrada logo no início d'A Guerra dos Mundos. Ao narrar a extinção de bisões e dodôs causadas por nós, pessoinhas más, o autor cita a dizimação dos aborígenes tasmanianos, da seguinte forma: "Os tasmanianos, apesar de sua aparência humana, foram varridos da face da Terra em uma guerra de extermínio empreendida por imigrantes europeus (...)". Destaco: "apesar de sua aparência humana". Enfim, por mais que algumas pessoas queiram dar lições éticas (lacrar, como falamos atualmente), em alguns momentos sempre deslizarão em suas convicções mais sombrias. Ainda pensei que poderia ser equívoco na tradução. Então fui em busca do texto original e achei: "in spite of their human likeness". C'est fini!

É isso. Desconhecia totalmente o escritor britânico e me surpreendi com sua prosa fluida e agradável, bem como com as bases científicas bem fundamentadas. A presença de seus escritos vê-se em toda a cultura pop (cinema, quadrinhos, jogos etc.). Achei que seu nome fosse sempre recordado pela natureza de precursor. No entanto, estava errado: sua prosa é notável até para o dias atuais. Fica a sugestão de leitura, ainda mais para quem gostou da concepção de Griffin n'A Liga Extraordinária.

Abraços invisíveis e até a próxima.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Miracleman: há algo de podre no reino editorial


Fonte da imagem: Google Street View

Acima, parte da Avenida Rio Branco, onde eu caminhava todos os dias ao retornar da escola, durante anos a fio. Nela, se encontravam as duas principais bancas de revistas da cidade, abarrotadas de gibis, revistas e muitos livros, especialmente de best seller (Paulo Coelho, Sidney Sheldon e John Grisham). Nos cantos da imagem dá para ver a traseira de ambas, funcionando ainda hoje. Mudaram bastante, claro, dedicando-se à venda de produtos vagabundos para tabacaria (seda, carvão, essências, Gudang Garam e Djarum Black etc.). Também há acessórios para telefonia celular e um monte de tranqueiras. Afinal, revista não vende muito atualmente. O mundo mudou.

Recordo como era gostoso sair da escola com dinheiro no bolso (passando fome sem lanchar por alguns dias) para comprar algum formatinho da Abril. Aquela época era boa para o leitor imberbe? Não. Formatinhos impressos em papel jornal, cheios de cortes e mal editados, custavam caro. As editoras nunca estiveram nem aí para nós, mesmo quando a Globo e a Abril bancavam todas as suas despesas editoriais apenas com gibizinhos. E a coisa não mudou nada, desde então. Benditos sejam a internet em banda larga, scans e tablets.

Após um imbróglio judicial envolvendo Miracleman - plágio de Capitão Marvel numa época onde tudo se plagiava - a família de seu criador Mick Anglo chegou a passar necessidades financeiras sérias e Alan Moore se manifestou a respeito, destilando ainda mais seu ódio contra as corporações de quadrinhos. Resolvida a querela, a Marvel finalmente pode editar o título, sob o nome definitivo "Miracleman". Todos aguardavam por isso, especialmente eu, apaixonado que sou pelas fases Alan Moore e Neil Gaiman. Então o que a Panini fez em terras brasilis? No auge dos encadernados, optou por formato canoa com grampos, em 16 números. Assim, o primeiro número teve capa variante, com a opção de uma metalizada custando R$ 13,90. Depois, o preço foi de R$ 7,50 a R$ 7,90. Não vou olhar preço a preço de cada número, mas daria uma média de R$ 129,00 toda a coleção, à época, para quem teve paciência de comprar em pedações, interrompendo a leitura com aquele continua na próxima edição quando poderia ter tudo isso num baita encadernado caprichado ou em dois, a preços similares. Sem contar que a versão HC é mais fácil de guardar do que várias revistinhas avulsas e mantem o estado geral da publicação mais conservado, mesmo com bastante manuseio, do que revistas fininhas grampeadas de capa mole sem orelhas.

Agora, seis anos depois (e olha que temos inflação vista a olhos nus e sentida na conta bancária que se esvazia fácil), a editora lança o material em encadernados. O primeiro está à venda por R$ 80,00. Quando vi aquele formato canoa à venda, pensei logo que seria para pegar trouxa. Pessoas, na ânsia de ler este gibi incrível, aceitariam tudo. São como Manuel Bandeira em sua ânsia pela Estrela da Manhã: "Digam que sou um homem sem orgulho / Um homem que aceita tudo / Que me importa?". Já conhecia esse "Shazam" de Anglo há alguns anos, devido a scans. Se a história tivesse saído em encadernados, teria adquirido. Repito: é um gibi notável.

Quando escrevi Eastrail 177 Trilogy e o Übermensch possível, resumi um pouco da genialidade de Moore ao aplicar seus princípios alquímicos (solve et coagula) neste personagem bobinho conhecido por Miracleman. Seguem alguns trechos:

"Vede; eu anuncio-vos o Super-homem: "É ele esse raio! É ele esse delírio!"

De Assim falou Zaratustra, por Friedrich Nietzsche

Em 1982, Alan Moore nos contou uma grande história de super-heróis. Nela, Micky Moran - homem de meia idade fora de forma que faz bico de repórter para sobreviver - descobre ser Miracleman, líder do time de "supers" cujas aventuras passadas ninguém recorda. Suas aventuras envolviam o que há de mais ingênuo no gênero. Para começar, recebeu seus poderes de um astrofísico que se tornou deidade e lhe deu a "palavra mágica" para quando precisasse salvar o dia. Não era Shazam, mas sim Kimota (atomik). Ele e seus amigos - incluídos aí Kid Miracleman e Miraclewoman (!) - viviam em luta constante com o maquiavélico Gargunza, gênio científico do mal. Para variar, ninguém se machucava realmente, todos contavam piadinhas em momentos de tensão e, no "número seguinte", o vilão retornava para encher o saco.

Mas como Micky Moran viveu tudo isso e ninguém se recordava da existência de superseres? Simples, as maravilhas existiam apenas em HQs infantis e ele foi cobaia num longo experimento, onde viveu quase oito anos em sono constante, sendo alimentado com aventuras pueris retiradas de gibis. Só que, um dia, ao se recordar de tudo, despertar na plenitude de seus poderes e buscar sua origem, os super-heróis e os megas vilões estarão no mundo real. Entretanto, as histórias não serão mais tão bobas: estupros (masculino e feminino), pedaços de corpos caindo dos céus, orgias celestiais e totalitarismo estarão presentes. E até mesmo suicídio do alter ego de Miracleman, numa das passagens que considero a mais tocante dos quadrinhos. Num dado momento, Micky Moran quer morrer: perdeu esposa e filha e se vê como inútil. Então, sobe uma montanha, retira as roupas e deixa um bilhete. Pronuncia a palavra Kimota e torna-se Miracleman. Este lê seu epitáfio e, desde então, nunca mais voltará ao corpo de Moran. Na mitologia criada por Alan Moore, a "transformação" se dá pela troca de corpos clonados, quando pronunciada a palavra-chave. Mike perecerá no limbo do infra-espaço, para sempre. Seria algo como Clark Kent se matar e deixar apenas Superman vivo.

"Suicídio" de Mike Moran em Miracleman #14

Acredito que não comprarei este gibi porque li e reli todas as fases Moore/Gaiman para o personagem. São obras brilhantes. Quem tenta encontrar pontos negativos nessa "desconstrução" (palavrinha banal, hoje em dia) narrativa possui mau gosto, quer chamar atenção ou apenas não leu direito, precisando empreender releitura. Além de evitar comprar livros e HQs por diversos motivos esmiuçados neste blogue, a nova safadeza editorial vem aí: aparentemente, este primeiro volume contará com quase 1/3 de extras. Sim, aquele monte de bobagem impressa para encher linguiça. O caso d'A Liga Extraordinária Volume I (Panini, 2010) ainda é emblemático, onde mais da metade do livro contou com extras (aproximadamente 200 páginas de material inútil). E Punk Rock Jesus (2018), também da Panini, com 1/3 de extras? Em resumo: a editora não se contentou em lançar Miracleman no formato canoa para ganhar mais, depois relançando tudo em encadernado. Neste, ainda encheu de extras para inviabilizar um volume único.

Como grande fã do ermitão pentelho, gostaria de ter Miracleman em encadernados. Entretanto, dispenso. Dinheiro está difícil, a inflação anda galopante - devido à pandemia de coronavírus e milhões impressos (além da dívida rolada) para custear auxílios e roubalheiras em Estados e Municípios. Não posso me dar ao luxo de comprar "extras" caros quando poderia ter toda a saga num volume único relativamente caprichado, ainda que com capa cartão, a preço justo.

No momento, todo o mercado editorial nacional é, para mim, decepcionante. Obras em domínio público impressas em brochuras vagabundas caríssimas, gibis caros com 1/3 de extras para inflar ganhos e impedir a publicação de algo em volume único, editoras e livraria chorando as pitangas enquanto seus proprietários ostentam vidas de luxo etc. Não dá mesmo para mim. Sequer tenho grana e espaço para comprar tanta coisa, quanto mais para ler e reler tudo o que desejo. Então apenas opto por não fazê-lo. Mas acho natural quem ainda se deslumbre com o acúmulo de publicações caras, pois sei que afaga o ego e dá um certo prazer tátil em relação ao possuir.

Abraços e... Kimota!

P.s.: Tomei conhecimento deste lançamento pelo blogue do Leo, o SubmundoHQ, único espaço que ainda acesso para saber das novidades do mercado.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

As Melhores Histórias de Wolverine de Todos os Tempos

Recordo bem este gibi à venda em bancas de revista, logo um ano após o início da temporada que dei sem ler quadrinhos. Durante uns sete anos, não li nenhum gibi e ainda por cima negligenciei vários que possuía, quase todos formatinhos da Abril. Recordo, por exemplo, que numa mudança esqueci alguns gibis num móvel velho e sequer retornei para pegá-los. Entre eles, havia Desafio Infinito (revistas lindas, em três partes, com lombada quadrada e papel similar ao LWC) e os dois números de Drácula Versus Heróis Marvel. Me arrependi, claro. Mas, na época, nem liguei mesmo. Espero que alguém os tenha achado e lido, ao menos isso.

Gibis sempre foram caros. Os da Abril mais ainda. A editora retirava o couro do leitor de quadrinhos e o tratava como cocô. Basta lembrar que formatinhos em papel jornal pagavam as despesas doutros setores falidos da empresa. Assim, enquanto víamos revistas luxuosas de "casa, jardim e fofoca" nas bancas, nossos gibis só não eram impressos em bosta prensada porque, creio, as autoridades sanitárias proibiriam. E quando havia algo melhorzinho, tacavam lá um "edição de luxo para colecionador" e custaria o supermercado da semana (ou do mês). Durante décadas, aliás, foi comum a expressão "o pato paga" na boca do então chefão Victor Civita. Quando editavam porcarias com luxo e requintes gráficos para nichos, sabendo que seria roubada, o publisher aquietava os ânimos com isso: os gibis Disney cobrirão os prejuízos.

Em 2001, o gibi acima com meu amado/odiado Wolverine custava R$ 23,90. É um encadernado meio vagabundo, com miolo em jornal e impresso em P&B. Numa atualização monetária, desconsiderando fatores como inflação real, custaria em torno de R$ 80,00, hoje. Eu cursava Direito em 2001, e com essa grana comprava algum romance, livro de contos ou poesia. Ou usaria a bufunfa em coisas essenciais, como comer e me locomover.

Sempre achei Logan um personagem subaproveitado. Compreendo que seu aspecto selvagem e "fodam-se todos" cativou jovens leitores e, atualmente, atrai milhões de pessoas que nunca leram um gibi mas estão nos cinemas, com camisetas de super-heróis e se dizendo super fãs de Batman e Homem-Aranha. E que bom. É ao menos um mercado funcionando, pois o dos quadrinhos está no limbo e só colhe as migalhas dos estúdios de cinema. Mas, felizmente, vez ou outra topávamos com histórias mais introspectivas com o carcaju. Eram poucas, mas recordo bem a alegria quando lia, num formatinho de Wolverine, alguma trama sobre ele enquanto um homem que caminha com seus pensamentos e tem a alegria de topar com algum canalha azarado cruzando seu caminho.

O encadernado relido esta semana não reúne as melhores histórias de Wolverine de todos os tempos. Esses títulos eram abobrinhas do marketing Civita. Mas reúne boas histórias com a fase Madripoor, cidade fictícia muita parecida com a Casablanca do cinema, onde Logan transita incógnito, com tapa-olho, sendo reconhecido pela alcunha de Caolho. Em 370 páginas, temos ótimas histórias com roteiros de Chris Claremont e Peter David; e arte magistral do finado John Buscema na maior parte dos capítulos. E, para dar aquele gostinho de nostalgia, a letras são de Lilian Mitsunaga. Neste volume, temos um Wolverine que poderia ter dado certo, ser melhor aproveitado sem representar apenas um nanico peludo porra-louca que dá sopapo para todos os lados enquanto mostra os dentes. Destaque para a história 24 Horas, abordando a antiga relação do protagonista com Victor Creed.

Em 2017, a Panini lançou Wolverine: Antologia. Não cheguei a comprar e lhe desconheço o conteúdo. Fiquei tentado em adquirir. Quem sabe até compre um dia. Mas me ressinto mesmo que, até hoje, nenhum grande escritor tenha recebido aval da Marvel para escrever algo mais denso para o velho Logan. É impossível, acho, encher um encadernado de 400 páginas com histórias excelentes de Wolverine.

Snikt!

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A mensagem final em David Boring

 


Meu primeiro contato com Daniel Clowes foi em Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro, há quase uma década e meia. Minha edição é da Conrad e, atualmente, fico feliz em ver que a Nemo a relançou, juntamente com a opus magnum Ghost World. A Nemo, aliás, está nos dado muito de Clowes. Foi por ela, por exemplo, que li Paciência e David Boring. Gosto de tudo realizado pelo autor e não compreendo críticas negativas sobre alguns de seus trabalhos. Por mais que leia e releia os argumentos de quem detrata e destrata algum trabalho, nunca acho plausível. Mas, enfim, questão de gosto. É um dos poucos autores com os quais ainda gasto grana, comprando edições impressas.

A história reúne fatos do insólito cotidiano. Acompanhamos o protagonista homônimo em sua jornada de tocar o barco da vida, enquanto confronta misteriosos homicídios, um obscuro gibi escrito e desenhado por seu pai incógnito, uma quase guerra biológica calcinando a Terra e... bundas, muitas bundas. E quanto maiores as bundas, melhor para o anti-herói. Também sou grande entusiasta de traseiros e por isso o compreendo. Penso, no entanto, que o núcleo da trama é a insatisfação humana e a constante busca pelo ideal. Em David, o ideal é representado por uma mulher idealizada desde a infância, inspirada em sua prima. É simbólico. Essa busca pelo idealizado nunca chega a lugar algum e só traz amargura ao aborrecido (Boring?) e meio apático personagem. E após tanta turbulência, quando tudo deu errado, passa a dar certo. 

Já ao final da HQ, na última página, o próprio David nos diz algo bem simples mas que, devido ao peso das páginas anteriores, consegue nos atingir de uma forma diferente: apenas viva o presente. Então ele está, finalmente, feliz.

Estamos tentando viver em paz, sem arrependimentos ou apreensões, preocupados em viver o presente em vez de um futuro imaginário.
Aceitamos graciosamente este final feliz, o reconhecemos desta forma: um bolsão suspenso de calmaria entre o clímax e o esquecimento.
Depois de tudo, o que mais poderíamos esperar além de algumas semanas perfeitas antes que as cortinas se fechem?
Acredite em mim, sou grato por cada segundo.

É tão simples. Um lugar-comum como o velho chavão "viva o presente" encontrou, neste álbum, grande amplitude e realmente conseguiu nos atingir. É que Clowes soube como contar um mesmo final de resiliência - tantas vezes contado em gibis, livros, filmes e seriados - de uma forma diferente. A mensagem final não vale apenas isolada, mas quando confrontada com tudo o que nos foi mostrado nas 140 páginas anteriores.

Num ponto da história, David diz ao seu tio avô August Brown ser produtor de filmes (uma mentira, de certa forma). O velho lhe responde: "Lembrem-se do que dizem: todas as histórias já foram contadas. Então, se você precisar contar uma, conte direito!". E o quadrinho é exatamente isso: a mesma história de sempre, contada direito.

Ler David Boring me abriu os olhos para retornar a apreciar mais o dia a dia e deixar de lado pensamentos sobre o porvir, totalmente fora de minhas mãos. Eu estava precisando disso.

Abraços aborrecidos e até a próxima.

Títulos de meu acervo pessoal.



segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Kombi 95, HQ de Thiago Ossostortos

 

Vai ralando na boquinha da garrafa
É na boca da garrafa
Vai descendo na boquinha da garrafa
É na boca da garrafa

Companhia do Pagode, 1995

Durante a leitura, topamos com imagens do televisor de tubo exibindo programas domingueiros onde mulherões quase peladas agarram homens tentando pegar sabonetes; programas de auditório com a nova sensação Mamonas Assassinas; programas da TV Cultura em sua época áurea, como X-Tudo, Glub Glub, Mundo da Lua ou os importados de peso a exemplo de O Mundo de Beakman ou Doug (fase Nickelodeon). Brinquedos da Estrela também estão por vários lugares, assim como jogos do Super Nintendo e arcades de Street Fighter. Mas calma, no pesado televisor também vemos cenas de Família Dinossauro, Sai de Baixo, TV Colosso, Anos Dourados, Capitão Planeta e Barrados no Baile. Os intermináveis comerciais não podem faltar, com um garotinho dizendo para sua mãe comprar Baton, a Arapuã ligadona em você e bebês fofinhos bebendo Parmalat (tomou?). Ah, uma formiga é arremessada por um poderoso sistema de som e o mordomo ranzinza não suporta mais o guri pedindo Tang.

Acima, falo do que encontramos durante a leitura de Kombi 95, quadrinho de Thiago Ossostortos cuja trama nuclear envolve amigos em busca de um guri desaparecido, o boato verídico e chancelado pela mídia marrom sobre roubos de órgãos por palhaços numa Kombi branca, o ápice do pagode mequetrefe com SPC, Molejo, Negritude Júnior, Katinguelê e pessoas descendo até a boquinha da garrafa etc. Mal sabíamos como tudo ficaria pior e que o poço não tem fundo. No início de cada parte do álbum, pacotes despejam Fandangos, Bancozitos, Pingo d'Ouro e Stiksy. Eu comprava alguns desses quando meu pai me levava à banca de revistas, quase sempre acompanhado de Taffman-E, também lembrado nas entrelinhas. Junto com os salgadinhos, Tazos! E, falando em banca de revistas, ela está presente, com prateleiras onde encontramos Adriane Galisteu na Playboy, VHS de minha eterna Silvia Saint, a revista Veja afirmando que você ainda se plugará na internet, A Morte do Super-Homem em formatinho pela Abril (comprei este gibi no lançamento), a Herói (comprei a número um, também, no lançamento), CD-ROM e Teclado e tantas e tantas outras finadas publicações.

O autor esclarece, no posfácio, que algumas referência foram anacrônicas, não sendo realmente dos anos 95/96, mas que tomou a liberdade porque são elementos que ilustram bem a época. E, colegas, que época! Costumo dizer que foi a melhor para pessoas de minha idade, pois, já adolescente, colhi todo o refugo cultural americano da década passada justamente neste período, enquanto tomava contato com tantas coisas novas, especialmente em relação à tecnologia.

Ah, mas nem tudo nos quadrinhos é fofo. Há espaço para a violência juvenil, a erotização precoce e o consumo de drogas pesadas se espalhando entre moleques, independentemente de classe social. Recordei, aliás, de colegas que, mais ou menos nesses mesmos anos, começaram a usar psicotrópicos variados e assim arruinaram suas vidas. Sueldo, Bruno e Beto, não sei onde vocês andam hoje, mas acredito que não estejam bem. Torço ao menos que Deus os proteja.

O gibi é caprichado: capa cartonada com orelhas (evitando desgastes similares a "orelhas de burro"), miolo com 128 páginas coloridas em papel similar ao couché, em boa gramatura e meio poroso e opaco, ajudando na leitura devido a menos reflexo; e tamanho 17,0 x 24,5 cm. Editora: Plot! Editorial, por mim até então desconhecida.

Aos jovens mancebos criados com biscoito recheado e água, à frente da TV durante a Sessão da Tarde em plena metade da década de 90', recomendo bastante. Como éramos felizes e não sabíamos. Eu, ao menos, fui feliz naquela época e me encantei com cada referência pescada durante a leitura de Kombi 95.

As referências musicais são essenciais e estão novamente presentes, assim como em trabalhos anteriores do artista. Dessa vez, você pode acessar a playlist Kombi 95, no Spotify, por meio de QR Code.

O autor, neste momento, está com financiamento coletivo aberto para sua próxima HQ, no Catarse. recomendo bastante. Escolhi a recompensa para R$ 55,00, pois assim ganho a publicação Eloiza Aterroriza, a qual não possuo, enquanto possuo (felizmente) quase toda a demais bibliografia do autor. Quem quiser participar, acesse: Dois Mil e Um Chopes. Há recompensas generosas para quem ainda não possui nada do quadrinista, com vários álbuns a uma bagatela.

Fico por aqui, sugerindo a gratificante leitura deste excelente gibi e que apoiem o projeto de Dois Mil e Um Chopes. Também indico o acesso às resenhas Mjadra e Os Últimos Dias do Xerife, as quais, para mim, foram as melhores leituras do ano.

Grato, Thiago Ossostortos, por me proporcionar este agradável momento em Kombi 95.

Abraços tortos e até a próxima.





sábado, 24 de outubro de 2020

Turma do Chiquinho

 

Caneca da linha promocional, sempre surgindo durante o ano.

Eram comuns ações publicitárias no formato quadrinhos, quando eu era guri. Marcas grandes elaboravam sequências de histórias em quadrinho para divulgação de seus produtos. Isso era feito encartado dentro de publicações variadas, de forma totalmente independente ou, então, como página publicitária, quase sempre na quarta capa. Recordo bastante, por exemplo, da Turma do Guaraná Brahma, cujo mundo era quase bizarro.

Haviam as grandes campanhas utilizando personagens consolidados, apenas com patrocínio da marca. Assim, por exemplo, foi a coleção de cinco revistas Turma da Mônica Especial Coca-Cola. Na época, você trocava tampinhas de garrafa por gibis. Mas meu foco, aqui, são mesmo aqueles gibizinhos elaborados especificamente para divulgação de marcas. E, levando minha filha para tomar sorvete, vi a distribuição gratuita da revista Turma do Chiquinho. No primeiro número, somos apresentados a toda a turma, com ênfase no Chiquinho e seu avô sorveteiro. Em tempos onde a Magali faz regime e Mônica não pode ser chamada de gorducha, o protagonista nos é apresentado como um garoto comilão, voraz consumidor de porcarias como balas, jujubas e chicletes. Além disso, ele é gordinho, o que, penso, ajuda até mesmo na concepção de que haver crianças gordas é normal (em vários casos, evitável) e, com isso, ajudamos até mesmo o trabalho contra o tal do bullying.

Achei bacana a iniciativa da rede brasileira de franquia. Fazia tempo que não via isso e, em tempos de mídias 100% animadas e digitais, editar algo assim possui ares nostálgicos. Para a criançada, chega a ser algo novo, diferente, vez que os gibis infantis em formatinhos estão encolhendo no mercado e, percebo, são adultos os que mais compram.

Parece meio bobo compartilhar, aqui, gibi promocional da Chiquinho Sorvetes. Mas, como antigo leitor de quadrinhos (e olha que eu lia até gibis do Faustão e de Leandro & Leonardo), interessado nos aspectos semiológicos dessa forma de arte e, claro, fornido consumidor de sorvete juntamente com minha pimpolha, não poderia deixar esta curiosidade passar em branco.

Ficha técnica (Notas de Expediente). Nome original: Turma do Chiquinho. Propriedade: CHQ - Gestão Empresarial e Franchising LTDA. Ano de Produção: 2019. Gênero: Infantil. Redação: Gustavo Azevedo. Ilustrações: Pedro Candolo. Diagramação: Higor Gimenes. Revisão: Jéssica Neves. Cores: Pedro Candolo, Higor Gimenes, Fernanda Alves e Pablo Maduro.

Doces abraços e até a próxima.






sexta-feira, 11 de setembro de 2020

O Beijo no Asfalto em Quadrinhos

O dinheiro compra até amor verdadeiro.
- Nelson Rodrigues

Tive contato com a obra de Nelson Rodrigues aos meus catorze anos de idade, quando pequenas adaptações eram exibidas no Fantástico (o show da vida!). Era o que tinha para ver: a televisão e o que ela queria nos dar e como queria nos dar. Não sinto saudades daquela época, embora sempre me recorde com carinho. Depois, houve reapresentações do seriado em outros anos e noutras grades. Em pesquisa na Wikipédia, descobri que "O nome da série é uma referência direta à coluna de Nelson no jornal Última Hora, onde o autor escreveu grande parte de suas histórias." E, cara, como era legal ver putaria na TV, naquela época. Também eram o que tínhamos: TV, poucos VHSs e revistas para dar vazão à tara adolescente que saía pelo ladrão.

Com catorze anos de idade eu já era leitor contumaz não apenas de quadrinhos, mas também de literatura variada. E logo fui à cata de conhecer mais sobre o dramaturgo e suas realizações, bem como de sua vida fodida e repleta de azares e tragédias. E, mais à frente, o vi sumir do mapa junto a autores como Monteiro Lobato e outros "cancelados" pela hegemonia progressista que realmente manda na porra toda. Embora sempre mostrando que, por trás da tradicional família brasileira, havia desvãos sinistros, Nelson Rodrigues foi árduo opositor ao progressismo e voz poderosa em prol do conservadorismo político. E, por isso, sua obra hoje está no ostracismo; ou melhor: sepultada sob pás de cal.

À toa numa banca de revistas, acho que no ano de 2012, vi a adaptação para quadrinhos de Beijo no Asfalto, por Arnaldo Branco (roteiro) e Gabriel Góes (desenhos). Custava uma mixaria e era o que valia, diante do formato diminuto (pocket da Ediouro, 12 x 18 cm) e acabamento vagabundo. Comprei e achei bem legal a adaptação, em traços duros e sombrios, sem arroubos e floreios. Descobri que a primeira versão do gibi saiu em formato americano, em 2007, com selo Nova Fronteira (empresa do grupo Ediouro). Certamente, a versão diminuta tolheu bastante da fruição estética.

A trama de O Beijo... é muito simples. Um homem casado, no horário de pico em meio à Praça da Bandeira, se ajoelha e beija a boca de outro homem prestes a morrer após atropelamento. A imprensa marrom logo se apropria da história para, junto à polícia corrupta, dissecar a vida do cidadão, arruinar sua existência familiar e profissional e, levando tudo às últimas consequências, lhe dar o famoso desfecho trágico e aparentemente insólito, típico da narrativa deste grande autor.

Esses dias, vasculhando meus gibis, reencontrei este quadrinho e o reli. E não sei porque razão achei interessante compartilhar aqui. Para quem quiser ler sem meter a mão no bolso, recomendo o blogue Caverna Nerd.

Abraços rodriguianos e até a próxima.